Investigação mostra que a expansão das facções criminosas e o aumento da fiscalização nos portos do Pará transformaram Macapá e Santana em pontos estratégicos para o envio de drogas à Europa. Entre 2023 e 2025, a Polícia Federal apreendeu 637 quilos de cocaína no estado

O Amapá passou a ocupar uma posição estratégica nas rotas internacionais do tráfico de cocaína que ligam países produtores da América do Sul ao mercado europeu. É o que revela uma reportagem da agência alemã Deutsche Welle (DW), publicada nesta quarta-feira (4) pelo portal UOL, com base em um estudo internacional sobre a expansão do crime organizado na Amazônia.
A investigação mostra como a localização geográfica do Amapá, a estrutura portuária de Santana e o intenso movimento de embarcações na foz do rio Amazonas passaram a ser explorados por organizações criminosas para transportar cocaína produzida principalmente na Colômbia, no Peru e na Bolívia.
O avanço das facções criminosas, especialmente do Comando Vermelho (CV), e o reforço da fiscalização nos portos do Pará contribuíram para o deslocamento de parte das operações do narcotráfico em direção ao território amapaense.
As informações constam de um relatório publicado em setembro pelo Observatório de Economias Ilícitas na Bacia Amazônica, vinculado à Iniciativa Global Contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC).
Porto de Santana se tornou estratégico para o narcotráfico

Segundo a reportagem, o aumento da fiscalização nos portos da região de Belém levou organizações criminosas a procurar alternativas para embarcar cocaína com destino ao exterior.
Nesse cenário, Macapá e Santana ganharam importância devido à proximidade com o Oceano Atlântico e à circulação de navios internacionais pela foz do Amazonas.
Gabriel Funari, diretor do Observatório de Economias Ilícitas na Bacia Amazônica, explica que a existência de um porto internacional em Santana e o movimento de grandes embarcações tornaram a região especialmente atrativa para as organizações criminosas.
Os traficantes passaram a explorar a estrutura logística regional para introduzir carregamentos de cocaína clandestinamente em navios e contêineres destinados ao mercado internacional.
O relatório aponta que essa movimentação ganhou força na última década, acompanhando a expansão das facções criminosas brasileiras e o crescimento da demanda por cocaína na Europa.
Comando Vermelho, PCC e facções locais participam da estrutura criminosa
A reportagem reforça informações de outra investigação do UOL, divulgada em 13 de outubro, que detalhou a atuação do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital (PCC) nas rotas internacionais que passam pelo Amapá.
Segundo o levantamento, as duas organizações criminosas ampliaram sua presença na região, estabelecendo conexões com facções locais.
Entre os grupos mencionados estão a Família Terror do Amapá (FTA), Amigos Para Sempre (APS) e União do Crime do Amapá (UCA).
De acordo com o estudo, essas organizações regionais participam de atividades relacionadas ao recebimento e armazenamento de entorpecentes, enquanto grupos de maior alcance nacional atuam nas operações de exportação e no abastecimento do mercado local.
O levantamento também identifica uma rota emergente que conecta Colômbia, Suriname, Guiana Francesa e Amapá, ampliando as possibilidades de circulação internacional da cocaína.
A presença dessas organizações evidencia que o problema ultrapassa o tráfico destinado ao consumo interno e envolve uma estrutura criminosa transnacional.
Polícia Federal apreendeu 637 quilos de cocaína em três anos

Os números apresentados ajudam a dimensionar a utilização do território amapaense pelo narcotráfico.
Entre 2023 e 2025, a Polícia Federal apreendeu 637 quilos de cocaína no Amapá. Segundo a instituição, os carregamentos tinham como destino o mercado europeu.
Uma das maiores apreensões ocorreu em junho de 2025, quando as polícias Federal e Civil localizaram aproximadamente 400 quilos de cocaína em uma área rural de Macapá.
A droga pertencia ao Comando Vermelho e aguardava transporte para navios que seguiriam em direção a Portugal.
Em outra operação, realizada em 2024, agentes federais encontraram 150 quilos de cocaína escondidos em um compartimento submerso de uma embarcação atracada no Porto de Santana.
As apreensões demonstram que o Amapá deixou de ser apenas uma área de passagem secundária e passou a integrar operações de maior dimensão do tráfico internacional.
Arquipélago do Bailique também aparece nas investigações
A reportagem identificou o arquipélago do Bailique, pertencente ao município de Macapá, como uma das regiões utilizadas na movimentação de drogas.
Uma moradora relatou, sob anonimato, que uma residência na Vila Progresso teria sido utilizada por estrangeiros como ponto de apoio para receber e despachar carregamentos de cocaína.
Segundo o relato, embarcações circulavam pela região transportando drogas, provocando medo entre os moradores.
A localização das ilhas, próximas às rotas de navegação da foz do Amazonas, favorece sua utilização como pontos de apoio logístico.
O episódio ilustra como comunidades ribeirinhas podem ser afetadas pela presença de organizações criminosas que disputam o controle de rotas fluviais.
Expansão do tráfico aumenta violência e ameaça comunidades

A reportagem da Deutsche Welle chama atenção para uma das principais consequências da expansão do narcotráfico na Amazônia: os lucros das operações internacionais não permanecem necessariamente na região, mas seus efeitos sociais e territoriais atingem diretamente a população.
Gabriel Funari destaca que a expansão das organizações criminosas provoca violência e compromete o controle territorial exercido pelas comunidades locais.
O cenário é especialmente preocupante no Amapá, que, segundo o Atlas da Violência 2026, registrou taxa de 45,7 homicídios por 100 mil habitantes, a maior do país no levantamento.
Embora esse indicador não permita atribuir todas as mortes ao tráfico de drogas, a presença de organizações criminosas representa um desafio adicional para as políticas de segurança pública.
A expansão dessas redes também exige maior capacidade de investigação financeira, inteligência policial e fiscalização das estruturas portuárias e fluviais.
Cooperação internacional é considerada fundamental
Outro ponto destacado pela reportagem é a necessidade de ampliar a cooperação entre os países envolvidos nas rotas do narcotráfico.
Segundo os especialistas, o enfrentamento das organizações criminosas depende do compartilhamento de informações de inteligência e da realização de operações coordenadas entre autoridades nacionais e estrangeiras.
Apesar da existência de programas apoiados pela União Europeia, ainda há dificuldades para transformar os acordos de cooperação em ações operacionais permanentes.
Na fronteira do Amapá com a Guiana Francesa, a parceria entre Brasil e França para combater o garimpo ilegal é apontada como uma experiência que poderia ser ampliada para o enfrentamento do tráfico de cocaína.
As operações simultâneas realizadas pelas forças de segurança dos dois países na região do rio Oiapoque demonstram a possibilidade de atuação conjunta contra organizações criminosas transfronteiriças.
Governo do Amapá afirma ter ampliado investimentos em segurança

Na reportagem publicada pelo UOL em outubro, o Governo do Amapá informou que realizou investimentos superiores a R$ 19 milhões em ações de combate ao crime organizado.
Segundo a administração estadual, os recursos incluem equipamentos, armamentos, viaturas, drones e melhorias estruturais para as forças de segurança.
O governo também destacou ações de fortalecimento da fiscalização na região de fronteira, especialmente no município de Oiapoque.
Apesar dos investimentos anunciados, os estudos internacionais apontam que o enfrentamento do narcotráfico exige uma estratégia integrada, envolvendo autoridades estaduais, federais e organismos internacionais.
Amapá enfrenta os efeitos locais de um mercado criminoso internacional
A transformação do Amapá em uma rota relevante para o tráfico internacional de cocaína representa um desafio que ultrapassa as fronteiras estaduais.
A combinação entre localização geográfica, acesso ao Atlântico, extensa rede hidrográfica e presença de organizações criminosas colocou o estado em uma posição estratégica para o transporte de drogas destinadas principalmente à Europa.
Ao mesmo tempo, a expansão dessas atividades ameaça comunidades ribeirinhas, amplia os desafios das forças de segurança e favorece a consolidação territorial das facções criminosas.
As investigações publicadas pelo UOL revelam que o crescimento do narcotráfico no Amapá não constitui um fenômeno isolado, mas integra uma reorganização das rotas internacionais de cocaína na Amazônia.
O principal alerta dos pesquisadores é que, enquanto os lucros bilionários do mercado internacional de drogas são movimentados por organizações criminosas, os impactos da violência, da insegurança e da expansão das facções permanecem nas comunidades amazônicas.








