
O avanço das atividades de pesquisa na Margem Equatorial — a faixa petrolífera que vai do Amapá ao Rio Grande do Norte e cuja perfuração exploratória recebeu autorização ambiental recente — reacendeu projeções sobre o impacto econômico dessa “nova fronteira” para o Pará.
Um levantamento do Dieese/PA, fundamentado em estudos da CNI e nos parâmetros do plano estratégico da Petrobras (volume hipotético de produção, preço do petróleo e câmbio), aponta que o estado pode registrar um incremento de R$ 10,7 bilhões no PIB em cinco anos e gerar cerca de 52 mil empregos formais no mesmo período, caso a exploração avance para produção comercial. O levantamento do Dieese-PA foi publicado pelo Portal ParáWebNews.
A estimativa considera um cenário de referência com um poço produtor equivalente a 100 mil barris/dia, preço médio de US$ 80/barril e câmbio em R$ 4,93 — parâmetros que determinam potencial de receita, arrecadação e multiplicadores setoriais utilizados nas simulações econômicas.
Destaques setoriais
Segundo o simulador utilizado pelo Dieese/PA, os efeitos diretos e indiretos se distribuem por diversos setores da economia paraense:
- Indústrias extrativas: incremento estimado em R$ 14,9 bilhões — o maior impacto setorial, decorrente de atividade de exploração, serviços offshore e fornecimento de insumos.
- Indústria de transformação: +R$ 1,12 bilhão, pela demanda por peças, equipamentos e componentes.
- Transporte e armazenagem: +R$ 1 bilhão, com necessidade de logística portuária, cabotagem e serviços de apoio.
- Outros serviços (turismo de negócios, alimentação, hospedagem): +R$ 1,5 bilhão.
- Comércio: +R$ 642 milhões.
- Atividades imobiliárias: +R$ 401 milhões.
- Serviços financeiros e seguros: +R$ 313 milhões.
- Construção civil: +R$ 246 milhões.
- Agropecuária, informação e comunicação, eletricidade/água/resíduos: incrementos menores, mas relevantes ao efeito multiplicador regional.
Esses números explicam por que o presidente da Fiepa, Alex Carvalho, enxerga a Margem Equatorial como uma oportunidade para “movimentar toda a cadeia produtiva” e atrair investimentos em parques industriais, fornecedores e serviços associados.
Arrecadação e royalties: projeções e limites
O economista Genardo Oliveira calcula que, em horizonte de 25 anos, a Margem Equatorial poderia gerar R$ 175 bilhões de renda ao Brasil, com R$ 106 bilhões destinados a impostos e participações governamentais — cifras sujeitas, porém, a variações de preço e volume. Se o Pará captasse 20% dessa arrecadação ao longo do período, o estado poderia receber cerca de R$ 21,2 bilhões (média anual de R$ 850 milhões).
Ainda assim, a ANP lembra que só após a declaração de comercialidade e entrada na fase de produção é que se pode estimar com precisão royalties e participações, porque esses valores dependem do volume efetivamente produzido, do preço internacional do petróleo e das regras de repartição vigentes. Ou seja: as projeções são condicionais e não equivalem a receita certa no curto prazo.
Emprego e desafios de conteúdo local
A estimativa de 52 mil empregos formais no Pará (52.000) considera tanto vagas diretas na cadeia petrolífera quanto efeitos indiretos em serviços e comércio. Para a Federação Nacional dos Petroleiros (FNP) e o Sindipetro Amazônia, porém, o maior risco é a repetição de padrões históricos: sem políticas de qualificação locais, vagas especializadas tenderão a ser ocupadas por profissionais de outras regiões — cenário observado em empreendimentos minerais e petrolíferos anteriores.
Por isso, dirigentes sindicais e economistas defendem medidas como:
- Políticas públicas de qualificação técnica e superior (cursos técnicos, engenharias, formação offshore) em IFFs e universidades estaduais/federais;
- Requisitos de conteúdo local e contratação prioritária de fornecedores regionais;
- Planos de mobilização de fornecedores para internalizar cadeias produtivas;
- Revisão do modelo de concessão/partilha, com debates sobre as implicações de soberania, regime de royalties e participação da Petrobras como operadora.
Infraestrutura como condicionante
Especialistas apontam que o Pará dispõe de portos e base logística relevantes, mas insuficientes para absorver todo o investimento exigido por uma cadeia offshore de grande porte. São necessárias ações imediatas e de médio prazo:
- Expansão e especialização portuária (terminais para carga offshore, bases de apoio/logística, estaleiros e áreas de manutenção).
- Melhorias em estradas e ferrovias que interliguem polos produtivos a terminais de embarque.
- Energia, telecomunicações e fibra para operações 24/7 e suporte a centros de operação remota.
- Habitação e oferta de serviços urbanos nas cidades-polo para receber fluxos temporários de trabalhadores.
Sem esses investimentos, advertem economistas, o estado corre o risco de “exportar apenas recursos” e importar o desenvolvimento — ou seja, ver os lucros e empregos qualificados se concentrarem fora do território local.








