“Festival de pesquisas” marca eleição no Amapá e diferenças entre números chamam atenção

Estado recebeu sucessivos levantamentos de institutos nacionais e locais ao longo de 2026; pesquisas chegaram a apresentar diferenças entre 13 e 30 pontos entre Furlan e Clécio, enquanto regras do TSE exigem identificação de contratantes, custos e origem dos recursos

Institutos nacionais e regionais realizaram sucessivos levantamentos

A eleição de 2026 no Amapá ficará marcada não apenas pela intensidade da disputa pelo Governo e pelas duas vagas do Senado. A quantidade de pesquisas eleitorais divulgadas ao longo do ano também se transformou em um capítulo à parte da campanha.

Institutos nacionais e regionais realizaram sucessivos levantamentos sobre o eleitorado amapaense, alguns deles repetindo pesquisas em intervalos relativamente curtos. AtlasIntel, Paraná Pesquisas, Real Time Big Data, Quaest, Veritá, Doxa e F5 estão entre os nomes que mediram a corrida eleitoral no estado durante 2026.

O volume chama atenção por se tratar de um dos menores colégios eleitorais do país. Mas outro aspecto desperta ainda mais interesse: a distância entre os resultados apresentados pelos diferentes institutos, principalmente na disputa entre o ex-prefeito de Macapá Antônio Furlan (PSD) e o governador Clécio Luís (União Brasil).

A quatro dias da eleição, novos levantamentos ainda podem ser divulgados e acrescentar outros números ao verdadeiro festival de pesquisas que acompanhou a campanha amapaense.

De 13 a mais de 30 pontos de diferença

Um exemplo ajuda a dimensionar a disparidade.

Pesquisa Quaest, realizada entre 20 e 23 de setembro, mostrou Furlan com 53% e Clécio com 40% no cenário estimulado. A diferença era de 13 pontos percentuais. Foram entrevistados 804 eleitores, com margem de erro de três pontos. A pesquisa foi encomendada pela Rede Amazônica.

Pesquisa Quaest onde a diferença entre Clécio e Furla é de 13 pontos

Poucos dias antes, levantamento do Instituto F5, com entrevistas realizadas entre 10 e 14 de setembro, havia apresentado um quadro muito mais distante: 61,1% para Furlan e 30% para Clécio, diferença de 31,1 pontos.

Já o Real Time Big Data, em pesquisa divulgada nesta quarta-feira (30), colocou Furlan com 61% e Clécio com 39%, diferença de 22 pontos. O levantamento ouviu 1.600 eleitores entre 25 e 29 de setembro e foi contratado pela 3 Poderes Mídia e Comunicação Ltda.

O Paraná Pesquisas, divulgado no dia 28, apresentou outro retrato. Na projeção de votos válidos, Furlan apareceu com 59,2%, enquanto Clécio registrou 39,7%.

As diferenças não significam, por si só, irregularidade. Pesquisas podem utilizar metodologias, amostras, períodos de coleta, ponderações e formas de abordagem diferentes. Também são retratos do momento em que as entrevistas são realizadas, e não previsões do resultado das urnas.

Mas oscilações dessa magnitude naturalmente levantam questionamentos entre eleitores, candidatos e especialistas sobre metodologia, composição das amostras e capacidade de cada levantamento representar adequadamente um eleitorado relativamente pequeno.

Amapá entrou no radar de grandes institutos

Outro aspecto que chama atenção é a presença recorrente de institutos nacionais que nem sempre colocaram o Amapá entre os estados acompanhados com frequência em eleições anteriores.

A Quaest, por exemplo, realizou em agosto seu primeiro levantamento de 2026 no estado, entrevistando 804 eleitores. Na ocasião, Furlan tinha 55% e Clécio 35%. Um mês depois, o instituto retornou ao Amapá e encontrou 53% para Furlan e 40% para Clécio.

O Paraná Pesquisas também esteve várias vezes no estado. Levantamentos catalogados mostram pesquisas em junho, julho, agosto e setembro. O Real Time Big Data realizou levantamentos em julho e setembro. AtlasIntel pesquisou o eleitorado amapaense ainda em março.

O Amapá tornou-se, portanto, um mercado bastante movimentado para pesquisas eleitorais em 2026.

Pesquisa do Instituto F5 havia apresentado um quadro muito mais distante: 61,1% para Furlan e 30% para Clécio, diferença de 31,1 pontos

Pesquisa custa dinheiro — mesmo quando instituto paga a própria conta

A quantidade de levantamentos também levanta uma questão objetiva: quem está pagando pelas pesquisas?

Pesquisa eleitoral envolve entrevistadores ou sistemas de coleta, estatísticos, processamento de dados, supervisão, controle de qualidade e elaboração de relatórios. Existe, portanto, custo para sua realização.

A legislação eleitoral prevê mecanismos justamente para tornar esse financiamento transparente.

A Resolução nº 23.600/2019 do Tribunal Superior Eleitoral, atualizada para as eleições de 2026, determina que cada levantamento seja registrado no sistema PesqEle pelo menos cinco dias antes da divulgação.

Entre as informações obrigatórias estão quem contratou a pesquisa, valor e origem dos recursos, metodologia, período de realização, plano amostral, margem de erro, nível de confiança, questionário e identificação do responsável pelo pagamento.

A regra vai além.

Mesmo quando um instituto afirma realizar uma pesquisa com recursos próprios, precisa informar à Justiça Eleitoral quanto o levantamento custou e qual foi a origem do dinheiro utilizado. Nessa hipótese, a regulamentação também exige documentação específica da empresa responsável.

Portanto, a expressão “pesquisa sem custo” não é tecnicamente adequada. Pode existir pesquisa sem contratante externo, financiada pelo próprio instituto, mas isso não significa ausência de custo.

Senado também apresenta números bastante diferentes

As divergências não ficaram restritas à disputa pelo Governo.

No Senado, onde cada eleitor poderá escolher dois candidatos, institutos adotam inclusive formas diferentes de apresentar os resultados.

A Quaest divulgada em 24 de setembro colocou Rayssa Furlan (Podemos) com 28%, Randolfe Rodrigues (PT) com 20%, Lucas Barreto (PSD) com 19%, Alliny Serrão (União) com 11%, Acácio Favacho (MDB) com 9% e João Capiberibe (PSB) com 2%.

Quatro dias depois, o Paraná Pesquisas apresentou, na soma dos dois votos, Rayssa com 54%, Randolfe com 36,7%, Lucas com 36,1%, Acácio com 21,4%, Alliny com 20% e Capiberibe com 6,1%.

As escalas não podem ser comparadas diretamente sem observar como cada instituto consolida os dois votos para senador, mas as diferenças reforçam a necessidade de o eleitor verificar a metodologia antes de comparar percentuais.

As diferenças observadas ao longo da campanha também exigem cuidado na interpretação

Capiberibe questionou ausência de seu nome

Um episódio envolvendo o ex-governador e ex-senador João Alberto Capiberibe (PSB) acrescentou outro ingrediente à discussão sobre as pesquisas no Amapá.

Segundo obtidas pelo ConectAmapá, Capiberibe tomou conhecimento, por meio de um grupo de WhatsApp, de levantamento em que seu nome não teria sido apresentado entre as opções para o Senado. O ex-senador teria manifestado intenção de recorrer ao Tribunal Regional Eleitoral do Amapá.

A questão, entretanto, é juridicamente relevante.

Em julho, o próprio TSE alertou que, a partir da data prevista no calendário eleitoral, as pesquisas estimuladas devem apresentar os nomes de todos os candidatos. Até mesmo candidato com registro indeferido, cancelado ou não conhecido deve continuar sendo apresentado enquanto permanecer sub judice, nas hipóteses previstas pela regulamentação.

Capiberibe aparece normalmente em diversos levantamentos posteriores. Na Quaest de setembro tinha 2%; no F5, 4,9%; e no Paraná Pesquisas, 6,1%.

Pesquisas são retratos, não resultados antecipados

As diferenças observadas ao longo da campanha também exigem cuidado na interpretação.

Uma pesquisa eleitoral é uma estimativa baseada em uma amostra do eleitorado. O resultado depende, entre outros fatores, do desenho amostral, da metodologia de coleta, das ponderações estatísticas, do período em que as entrevistas ocorreram e da formulação das perguntas.

Festival ainda pode não ter acabado

Com a eleição marcada para domingo, 4 de outubro, o festival de pesquisas no Amapá pode ainda reservar novos capítulos.

Os levantamentos disponíveis convergem em alguns pontos, mas divergem significativamente na dimensão das vantagens apresentadas. Na corrida pelo Governo, houve pesquisa em setembro indicando diferença de 13 pontos entre Furlan e Clécio e outra, em período próximo, apontando distância superior a 30 pontos.

No domingo, pela primeira vez nesta eleição, não haverá amostra, margem de erro ou intervalo de confiança: haverá a contagem dos votos depositados nas urnas.

Até lá, cada novo levantamento deve ser lido acompanhado de informações que muitas vezes recebem menos destaque do que os percentuais: quem contratou, quem pagou, quanto custou, onde foram realizadas as entrevistas, qual foi a metodologia, o tamanho da amostra e a margem de erro. São esses elementos que permitem ao eleitor compreender o que efetivamente cada pesquisa está medindo.

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