Investigação aponta que ofensiva contra o garimpo ilegal em Roraima provocou deslocamento de criminosos para o Amapá, onde cresce a invasão de unidades de conservação e terras protegidas

A intensificação das operações federais para retirar garimpeiros ilegais da Terra Indígena Yanomami, em Roraima, provocou um efeito colateral que já preocupa autoridades ambientais e de segurança pública: a migração de grupos criminosos para outras áreas da Amazônia, entre elas o Amapá, que passou a registrar aumento expressivo da atividade garimpeira ilegal em áreas protegidas.
Segundo especialistas a repressão ao garimpo na maior terra indígena do país levou organizações criminosas a reorganizarem suas operações em novos territórios ricos em ouro, mantendo a mesma estrutura logística, financeira e operacional utilizada anteriormente em Roraima. A mudança de rota tem ampliado a destruição ambiental em estados vizinhos, especialmente na região amazônica.
Amapá
No Amapá, o avanço desses grupos ocorre sobre áreas de alta relevância ambiental, incluindo unidades de conservação e territórios tradicionalmente preservados. A exploração clandestina é marcada pelo uso de maquinário pesado, abertura de clareiras na floresta, assoreamento de rios, contaminação por mercúrio e violência contra comunidades locais, repetindo o modelo que provocou a crise humanitária na Terra Yanomami.
Só neste ano, o Ibama (instituto do meio ambiente) realizou seis operações contra o garimpo ilegal, sendo duas em maio, em áreas protegidas entre o Amapá e o norte do Pará, onde ficam o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque e o Vale do Jari. Em um dos pontos de suporte do crime, foram apreendidos 441 explosivos.
Quinze pessoas foram detidas, mas liberadas por falta de condições logísticas para a condução até uma delegacia. As aeronaves utilizadas nas operações têm lotação limitada, o que inviabiliza o transporte de número elevado de passageiros.

Em maio, o órgão coordenou a operação Calha Norte, que destruiu sete escavadeiras hidráulicas, dois tratores, três quadriciclos, dezenas de motores e acampamentos clandestinos, além de ter descartado 3.300 litros de diesel.
No mesmo mês, o Ibama promoveu uma nova fase da operação Domo Amazônico, que tenta expulsar do Vale do Jari, desde agosto de 2025, os garimpeiros oriundos de outras áreas de exploração ilegal na amazônia.
Foram destruídos, entre outros, 31 acampamentos, além do descarte de 14.250 litros de diesel e 350 litros de gasolina. Também nessa ação ninguém foi preso.
Felipe Finger, coordenador do GEF (Grupo Especial de Fiscalização) do Ibama, destaca que detectou mais de 300 km de ramais clandestinos. Segundo ele, nesse mosaico de áreas protegidas, a devastação se estende desde a Estação Ecológica do Jari, uma unidade de conservação federal, até mais ao norte, chegando a ameaçar terras indígenas.
“São mais de 300 km abertos de ramais clandestinos para o deslocamento das escavadeiras nas áreas protegidas do Vale do Jari. Esse fenômeno só é possível com o alto preço do ouro. Fora desse patamar, não tem como eles fazerem esse nível de investimento. Para grandes maquinários entrarem nesse território, estamos falando de investimentos astronômicos”, disse ele
Crime organizado por trás do ouro
As investigações indicam que o garimpo ilegal deixou há muito tempo de ser uma atividade artesanal. Atualmente, a exploração clandestina do ouro é financiada por organizações criminosas com grande capacidade logística, responsáveis pelo transporte de equipamentos, combustível, alimentos e trabalhadores, além da comercialização do minério extraído ilegalmente.
Esses grupos também utilizam pistas clandestinas, embarcações e rotas fluviais para abastecer os garimpos e escoar a produção, transformando o ouro ilegal em fonte de financiamento para outras atividades criminosas.
Pressão crescente sobre a floresta amapaense

O Amapá concentra um dos maiores percentuais de áreas protegidas do Brasil, fator que, paradoxalmente, tornou o estado alvo de organizações dedicadas à mineração ilegal após o endurecimento das ações de fiscalização em outras regiões amazônicas.
Especialistas alertam que a migração desses grupos representa um novo desafio para os órgãos de fiscalização, exigindo reforço das operações integradas entre Polícia Federal, Ibama, ICMBio, Funai e forças estaduais para impedir que a expansão do garimpo reproduza no estado os impactos ambientais e sociais observados na Terra Indígena Yanomami.
Rastro de destruição

Além do desmatamento acelerado, o garimpo ilegal provoca contaminação dos cursos d’água por mercúrio, destruição da biodiversidade, aumento da violência e fortalecimento de organizações criminosas que utilizam a exploração mineral para lavagem de dinheiro e financiamento de outras atividades ilícitas.
O avanço desses grupos sobre o território amapaense reforça a necessidade de vigilância permanente e de políticas públicas capazes de impedir que a migração do garimpo ilegal transforme o Amapá em uma nova fronteira da exploração criminosa de ouro na Amazônia.








