Oiapoque consolida-se como principal porta de entrada para migrantes cubanos no Brasil

Em dias de maior movimento, até 80 cubanos chegam a desembarcar no porto de Oiapoque

Migrantes cubanos desembarcam na orla de Oiapoque (AP), vindos da Guiana Francesa / Foto F. São Pualo

O município de Oiapoque, localizado no extremo norte do Amapá, consolidou-se como o principal ponto de entrada de cidadãos cubanos que buscam refúgio no Brasil. Reportagem produzida pelos jornalistas Vinicius Sassine e Lalo de Almeida publicada pela Folha de S.Paulo mostra que impulsionados por uma grave crise econômica e social em seu país de origem — marcada pela falta crônica de alimentos, combustível, energia e acesso à internet —, milhares de cubanos têm vendido seus bens na ilha para financiar uma complexa e perigosa jornada através da Amazônia.

Em 2025, o registro oficial indicou que pelo menos 8.400 cubanos buscaram a delegacia da Polícia Federal em Oiapoque para formalizar o pedido de refúgio. Em 2026, a tendência de fluxo migratório permanece intensa, com cerca de 1.700 ingressos registrados apenas até o mês de maio. Esses números, contudo, são considerados parciais, uma vez que não contemplam as jornadas realizadas inteiramente na clandestinidade.

No ano passado, 41,9 mil cubanos pediram refúgio no Brasil. É quase o dobro das solicitações feitas por venezuelanos, 21,2 mil, conforme dados do Observatório das Migrações Internacionais, parceria entre UnB (Universidade de Brasília) e Ministério da Justiça. Em 2024, os pedidos de migrantes da ilha somaram 22,3 mil, uma quantidade inferior aos 27,1 mil pedidos de refúgio dos venezuelanos.

Migrantes cubanos aguardam atendimento na superintendência da PF em Oiapoque / Foto F. de São Paulo

A Jornada Amazônica

O percurso é marcado por deslocamentos por avião, estradas, embarcações e travessias clandestinas, em uma rota que parte de Cuba, passa por países como Suriname e Guiana Francesa e termina na fronteira entre Saint-Georges, do lado francês, e Oiapoque, no Brasil. A travessia final para o território brasileiro é feita em pequenas embarcações, conhecidas como “catraias”.

A reportagem da Folha relata cenas que já se tornaram comuns na orla de Oiapoque: famílias inteiras desembarcando com malas, crianças e poucos pertences, após cruzarem o rio Oiapoque em pequenas embarcações

“Em Cuba não se vive, só se sobrevive”, relata um dos migrantes, destacando a desesperança que os força a deixar o país. Para muitos, o Brasil é visto como uma terra de oportunidades, com destinos finais focados em cidades como Joinville (SC) e São Paulo, onde já existem redes de apoio de compatriotas.

Ernesto Remedios, 50, fazia sozinho a travessia. Ele é da província de Artemisa e pretendia chegar a Curitiba, onde já estão a mulher e um sobrinho, motorista de Uber, o mesmo trabalho que Ernesto almeja.

“Não há combustível, água potável, alimentos, telefone. E não se pode protestar contra isso”, afirmou Ernesto, que disse que trabalhava como motorista de ônibus escolar.

Antonio Jimenez, 40, a mulher dele, Mara Leguen, 40, e os filhos Daniel Alejandro, 14, e Diego, 11, seguiram direto para a polícia, poucos minutos após o desembarque no porto, para a formalização do pedido de refúgio.

A escolha pelo Brasil, segundo Antonio, deve-se ao bom momento da economia e ao que ele compreende como uma travessia mais em conta, apesar das longas jornadas. “Com o protocolo de refúgio, a gente pode trabalhar”, disse.

Antonio Jimenez, sua esposa Mara Leguen e os filhos Daniel Alejandro e Diego aguardam atendimento para ingressar com o pedido de refúgio na delegacia da Polícia Federal / Foto F. de São Paulo

A família de Antonio, Ernesto e dezenas de refugiados seguiram em picapes até o porto de Santana, um percurso de 600 km, feito por “picapeiros” que integram uma rede logística suspeita de praticar crimes, ao extorquir deliberadamente os cubanos. Isso se repete toda semana, nas quintas, sextas e sábados.

Na manhã de sábado (20), dezenas de cubanos —entre eles Antonio, Mara, Daniel Alejandro, Diego e Ernesto— já estavam acomodados em redes na embarcação Seamar IV, no porto de Santana. É uma dessas embarcações tradicionais que circulam pelos rios amazônicos, com diferentes andares e capacidade de transportar entre 350 e 1.000 pessoas.

Às 9h30, a Seamar IV deu partida, uma viagem de 24h até Belém. “Nenhum cubano quer deixar o país”, resume Ernesto.

Migrantes cubanos aguardam a partida da embarcação ancorada no porto de Santana (AP). Barco segue a Belém / Foto F. de São Paulo

Logística e Vulnerabilidade

O fluxo migratório gerou uma rede logística que, por vezes, explora a vulnerabilidade dessas famílias. Relatos apontam que os migrantes chegam a pagar valores muito superiores aos praticados para brasileiros no transporte terrestre e fluvial, sendo vítimas de extorsão por parte de operadores que facilitam a travessia. Em dias de maior movimento, até 80 cubanos podem desembarcar no porto de Oiapoque, muitos deles compostos por grupos familiares, incluindo crianças e idosos.

As redes que exploram os cubanos na travessia são suspeitas de organização criminosa, contrabando de migrantes, extorsão, lavagem de dinheiro e câmbio ilegal, conforme um inquérito da PF no Amapá, que já fez buscas e apreensões autorizadas pela Justiça. Parte dos suspeitos brasileiros passou a ser monitorada por tornozeleira eletrônica.

A atuação desses grupos, formados em suas bases por “picapeiros” e catraieiros, prossegue, com extorsão nos preços cobrados da marmita à passagem de barco. Um relatório da PF já descreveu essas pessoas como “fantasmas”, tamanha a discrição com que atuam. E isso é notado nos desembarques dos migrantes no porto.

Ao chegarem, o objetivo primordial é a obtenção do protocolo de refúgio junto às autoridades brasileiras. Este documento é visto como a “chave” para a regularização e o acesso ao mercado de trabalho formal, permitindo que iniciem o processo de integração em solo brasileiro. Embora novas rotas tenham surgido via Guiana e Roraima, Oiapoque permanece como um ponto estratégico central dessa nova dinâmica migratória no Brasil.

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