Potencial estimado pela ANP chega a 30 bilhões de barris; estudos projetam produção brasileira próxima de 5 milhões de barris por dia, além de impacto de até R$ 175 bilhões no PIB e quase 500 mil empregos

A descoberta de hidrocarbonetos na costa do Amapá pode representar apenas o início de uma transformação de grandes proporções para a indústria petrolífera brasileira. Se o potencial da Margem Equatorial for confirmado e convertido em produção comercial, o Brasil poderá avançar para o grupo dos maiores produtores de petróleo do mundo.
A projeção é destacada em levantamento publicado pela revista Exame sobre os possíveis impactos econômicos da nova fronteira petrolífera brasileira. Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a Margem Equatorial possui potencial estimado em 30 bilhões de barris de óleo.
A região possui aproximadamente 2,2 mil quilômetros de extensão, começando no extremo norte do Amapá e seguindo pelo litoral brasileiro até o Rio Grande do Norte. Pelo potencial geológico e econômico, já vem sendo tratada como uma espécie de nova grande fronteira petrolífera brasileira.
Brasil pode chegar a 5 milhões de barris por dia
Um estudo da Oxford Economics citado pela Exame estima que, com o desenvolvimento da Margem Equatorial, a produção brasileira poderia avançar dos atuais 3,8 milhões para aproximadamente 5 milhões de barris de petróleo por dia.
A dimensão desse volume pode alterar a posição do Brasil no mercado mundial de petróleo. Atualmente, Estados Unidos, Arábia Saudita e Rússia aparecem entre os grandes produtores globais, com produções significativamente superiores. A exploração da Margem Equatorial, entretanto, poderia colocar o Brasil entre os cinco maiores produtores mundiais.
Estados Unidos: Líder isolado da produção mundial, impulsionado pela extração de xisto (shale oil).
Rússia: Grande potência energética global na segunda ou terceira posição.
Arábia Saudita: Principal força da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo).
Canadá: Destaca-se pela exploração de areias betuminosas.
Irã / Iraque: Países do Oriente Médio que alternam posições no top 5 global conforme relatórios da Agência Internacional de Energia (AIE).
Hoje, Estados Unidos, com 13 milhões de barris/dia, Arábia Saudita, com 9,9 milhões, e Rússia, com 9,7 milhões.
O potencial ganhou ainda mais relevância após a Petrobras identificar hidrocarbonetos no poço Morpho, no bloco FZA-M-59, em águas profundas da Bacia da Foz do Amazonas, na costa do Amapá.
A descoberta comprova a presença de petróleo ou gás natural nas formações analisadas. Ainda não significa, porém, que exista uma reserva comercialmente explorável. A Petrobras precisará realizar novos estudos para dimensionar o reservatório e determinar sua viabilidade econômica.
Impacto pode chegar a R$ 175 bilhões no PIB
Além de transformar a posição brasileira no mercado internacional de petróleo, a exploração da Margem Equatorial poderá provocar efeitos bilionários na economia.
Cálculos da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indicam que uma futura produção poderia acrescentar até R$ 175 bilhões ao Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.
As projeções apontam ainda para a possibilidade de criação de aproximadamente 495 mil empregos formais e geração de cerca de R$ 11,2 bilhões em impostos indiretos.
Os efeitos alcançariam principalmente os seis estados abrangidos pelos estudos da Margem Equatorial: Amapá, Pará, Maranhão, Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte.
A cadeia econômica não ficaria limitada às plataformas e empresas diretamente responsáveis pela extração. Fornecedores, empresas de serviços especializados, logística, infraestrutura e atividades movimentadas pela renda dos trabalhadores também seriam beneficiados.
Amapá pode sentir impacto proporcional ainda maior
Para o Amapá, as projeções chamam atenção pela dimensão do impacto em relação ao tamanho atual da economia estadual.
O Simulador de Impacto na Margem Equatorial, desenvolvido pelo Observatório Nacional da Indústria, trabalha com diferentes hipóteses de produção, preço do barril e cotação do dólar.
Em uma simulação de produção de 300 mil barris por dia em cada estado, com petróleo cotado a US$ 80,20 e dólar a R$ 5,20, o valor anual da produção alcançaria aproximadamente R$ 45 bilhões por unidade da Federação.
Nesse cenário hipotético, somente no Amapá o impacto nominal sobre o PIB seria de aproximadamente R$ 33,49 bilhões. A estimativa de geração de empregos chegaria a 162.261 postos, enquanto os tributos indiretos alcançariam cerca de R$ 1,9 bilhão.
É na comparação proporcional com a economia existente que os números do Amapá se tornam ainda mais expressivos.
Segundo o simulador, o valor adicionado bruto projetado representaria impacto equivalente a 193,5% da base econômica estadual utilizada na comparação. No emprego total, o efeito estimado seria equivalente a 44,6%, percentual muito superior ao projetado para os demais estados analisados.
Os números são simulações e não significam que esses resultados estejam garantidos. Servem, porém, para dimensionar o tamanho da transformação econômica que uma produção petrolífera em grande escala poderia provocar em uma economia relativamente pequena como a amapaense.
Royalties também podem movimentar bilhões
Outro impacto importante está relacionado aos royalties e demais participações governamentais decorrentes da exploração.
Considerando um único bloco, o simulador aponta que royalties de 5% poderiam representar cerca de R$ 2,28 bilhões anuais. Com alíquota de 10%, seriam aproximadamente R$ 4,56 bilhões.
No cenário de 15% apresentado pela ferramenta, o montante chegaria a aproximadamente R$ 6,85 bilhões por ano para um único bloco.
A projeção também contempla valores decorrentes de participação especial, além de recursos destinados à pesquisa, desenvolvimento e inovação.
Para a CNI, cifras dessa dimensão tornam fundamental a discussão sobre a governança dos recursos do petróleo. Estados da Margem Equatorial ainda enfrentam gargalos em áreas como saneamento, educação, energia, transporte e conectividade, o que coloca no centro do debate a capacidade de transformar a renda petrolífera em desenvolvimento permanente.
Petrobras prevê US$ 3 bilhões em investimentos
A Petrobras pretende investir cerca de US$ 3 bilhões na Margem Equatorial nos próximos cinco anos, com previsão de perfuração de 15 poços.
A procura por novas reservas ganhou importância estratégica diante da expectativa de que a produção do pré-sal alcance seu pico entre 2030 e 2032. Atualmente, segundo os dados apresentados pela Exame, a indústria de óleo e gás representa aproximadamente 17% do PIB industrial brasileiro.
Nesse contexto, a Margem Equatorial passa a ser vista não apenas como oportunidade para os estados do Norte e Nordeste, mas como uma possível alternativa para sustentar a produção brasileira nas próximas décadas.
Descoberta no Amapá ainda é o primeiro passo
Apesar das projeções bilionárias, existe uma distância considerável entre a descoberta de hidrocarbonetos e a produção comercial de petróleo.
A autorização ambiental atualmente existente contempla a fase exploratória. A Petrobras ainda precisa delimitar a descoberta, perfurar novos poços e determinar o tamanho, qualidade e viabilidade econômica do reservatório.
Caso seja confirmada uma descoberta comercial, haverá outras etapas regulatórias e ambientais. Um Plano de Desenvolvimento precisará ser apresentado à ANP e será necessário novo processo de licenciamento ambiental para implantação e operação de eventual campo produtor.
Considerando a experiência de outros projetos marítimos complexos, a Exame aponta que o período entre a perfuração exploratória e o início da produção pode variar de sete a dez anos, colocando uma eventual produção comercial no horizonte de até 2035.
Portanto, os números ainda representam potencial, e não riqueza já assegurada.
Mas, caso as reservas estimadas sejam confirmadas e a exploração se mostre comercialmente viável, a descoberta iniciada na costa do Amapá poderá representar muito mais do que uma nova atividade econômica regional: poderá ajudar a redesenhar a posição do Brasil no mapa mundial do petróleo, colocando o país entre os maiores produtores do planeta.








