Segundo a prefeitura, ao menos sete ocupações vêm crescendo nos arredores do município, impulsionadas pelo encarecimento dos aluguéis

A expectativa pela exploração de petróleo na Margem Equatorial já provoca mudanças em Oiapoque, no extremo norte do Amapá, antes mesmo da confirmação de reservas com viabilidade comercial. Enquanto a Petrobras avança na perfuração do bloco 59, localizado a cerca de 160 quilômetros da costa, a cidade registra expansão de ocupações irregulares, alta nos preços dos imóveis e aumento do fluxo migratório.
Segundo a prefeitura, ao menos sete ocupações vêm crescendo nos arredores do município, impulsionadas pelo encarecimento dos aluguéis e pela chegada de moradores de outras cidades e estados atraídos pela possibilidade de desenvolvimento econômico ligado ao petróleo. Áreas de floresta têm sido desmatadas para dar lugar a barracos e moradias improvisadas, sem planejamento urbano.

O prefeito de Oiapoque, Inácio Maciel (PDT), afirma que os efeitos da expectativa já são sentidos pela população, apesar de os benefícios econômicos ainda estarem distantes. “Os benefícios do petróleo não chegaram, mas as consequências já”, afirmou. Segundo ele, imóveis na cidade já estão mais caros do que em Macapá.
A Petrobras, por sua vez, afirmou que não vê relação direta entre a perfuração do bloco 59 e o aumento das ocupações, mas destacou que mantém projetos voltados ao desenvolvimento sustentável das comunidades da região, com investimentos de cerca de R$ 88 milhões. O Ibama ressaltou que questões relacionadas ao ordenamento territorial e à política habitacional são de responsabilidade dos órgãos competentes.
Além da pressão sobre a moradia, o município também enfrenta especulação imobiliária e venda irregular de terrenos em áreas ocupadas. A prefeitura estuda a regularização fundiária de parte dessas regiões, enquanto busca formas de preparar a cidade para os impactos sociais e urbanos de uma eventual exploração de petróleo na costa amazônica.
A Petrobras informou ao Ibama que pretende concluir a perfuração do poço Morpho em agosto. A atividade havia sido interrompida por cerca de um mês no início do ano após um vazamento de fluido, episódio que resultou em multa de R$ 2,5 milhões aplicada pelo órgão ambiental.

Royalties
Caso a exploração de petróleo se concretize, cidades litorâneas do Pará e Amapá, especialmente Oiapoque, devem receber os royalties, num fluxo de dinheiro inédito ali.
Os recursos são uma compensação financeira paga pelas empresas produtoras, no caso a Petrobras, como remuneração pela exploração de recursos não renováveis. A cidade que mais recebe royalties no Brasil, Maricá (RJ), arrecadou R$ 2,6 bilhões em 2025.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que a exploração da Margem Equatorial pode elevar o PIB do Amapá em até 61,2%, além de gerar cerca de 54 mil empregos diretos e indiretos. O Amapá é hoje o Estado com o terceiro menor PIB do Brasil, à frente apenas de Acre e Roraima.
Expectativa
Em Oiapoque, pouco se cogita a possibilidade desses royalties não se concretizarem – e só a especulação já tem mudado a dinâmica da cidade e trazido migrantes de outros municípios, outros Estados e até outros países, como Sheila Cals.

Há 35 anos, a paraense Sheila decidiu cruzar o rio Oiapoque, para poder oferecer uma vida melhor aos filhos, na Guiana Francesa.
Mas em Caiena, a capital franco-guianense, a costureira de 69 anos começou a ouvir de amigos há cerca de dois anos que era a hora de voltar ao Brasil – mais especificamente à cidade de Oiapoque (AP). Ela achou que era mesmo a hora.
“Eu vim também pela melhoria que eu tenho certeza que o petróleo vai trazer para o município. É a expectativa de todos os moradores”, diz a moradora do Belo Monte, bairro que está na zona de expansão da cidade movida pelos migrantes.
Essa região, nos arredores do aeródromo de Oiapoque, sofreu uma transformação drástica nos últimos anos, com desmatamento e construção de centenas de casas em ocupações sem nenhuma estrutura.
Nas contas de Zione de Paiva, conhecida como a Loira do Belo Monte, presidente da associação do bairro, mais de 100 casas foram construídas só ali no último ano, chegando a 450.
“São pessoas que estão vindo para Oiapoque atrás de um emprego, atrás de uma oportunidade”, diz Loira.
Além do Belo Monte, ocupações ainda mais recentes, como Areia Branca, Nova Conquista e Independência, tem visto, dia após o outro, novas construções subindo e novos moradores chegando.
Fonte: O TEMPO e https://www.bbc.com/








