De frente para o microfone, Humberto era uma entidade

Há pessoas que morrem. E há aquelas que apenas silenciam o microfone. Humberto Moreira pertence a esse segundo grupo.
Quando iniciei no rádio, no final dos anos 1980, ele já era uma referência para quem sonhava viver da comunicação. Para quem estava começando, Humberto não era apenas um locutor. Era um modelo. Ao lado de Paulo Silva, Eraldo Trindade, J. Ney e Azevedo Picanço, formava o seleto grupo de profissionais que ajudou a construir a identidade do rádio amapaense.
Eu os ouvia com admiração, tentando entender o segredo de transformar palavras em emoção. Não imaginava que, alguns anos depois, teria o privilégio de dividir os mesmos estúdios, os mesmos microfones e a mesma paixão pelo rádio com alguns daqueles gigantes. Muito menos que Humberto Moreira se tornaria um amigo.
A vida tem dessas generosidades.

Compartilhamos programas em emissoras como Equatorial FM e 101 FM. Para mim, cada jornada ao seu lado era uma aula que dispensava quadro-negro. Bastava observá-lo diante do microfone.
Humberto não falava. Interpretava.
Era cuidadoso com cada palavra, rigoroso com a informação, preciso na respiração, impecável na pausa, perfeito na entonação. Sabia que a voz também comunica sentimentos e fazia dela um instrumento de respeito ao ouvinte.
Era daqueles profissionais que elevavam o nível de quem estava por perto.
De frente para o microfone, Humberto era uma entidade.
Nasceu para aquilo.
Era “o cara”.
Sua história atravessa gerações. Foi um dos primeiros apresentadores do Jornal da TV Amapá, levou credibilidade às telas da televisão e, mais tarde, fez do programa A Bola é Nossa uma referência para os apaixonados pelo esporte. Porque, ao lado do jornalismo e do rádio, havia outra paixão que carregava no peito: o futebol. Era botafoguense de corpo e alma. Foi o melhor narrador de futebol do rádio amapaense.
Amor pelo Amapá
Em algumas conversas, repetiu uma história que gostava de contar. Recebera convite para trabalhar em emissoras de outros estados. Poderia ter seguido um caminho diferente, talvez alcançado projeção nacional. Mas escolheu ficar.
Escolheu o Amapá.
Não por falta de oportunidades, mas por excesso de amor à terra onde construiu sua história.
Esse gesto diz muito sobre quem ele era.
Num tempo em que tantos partem em busca de reconhecimento, Humberto decidiu permanecer para ajudar a construir a comunicação do lugar que amava. Preferiu ser grande em casa a ser apenas mais um em qualquer outro lugar.
Hoje, a imprensa amapaense perde um dos seus maiores profissionais.
E eu perco um amigo.
Ficam as conversas nos corredores das emissoras, os ensinamentos transmitidos sem arrogância, a cobrança silenciosa para que sempre fizéssemos o nosso melhor e, sobretudo, aquela voz grave, segura e inconfundível que marcou gerações de ouvintes.
Os microfones continuarão ligados.
Os estúdios seguirão recebendo novas vozes.
Mas algumas frequências jamais serão ocupadas novamente.
A de Humberto Moreira permanecerá para sempre na memória de quem aprendeu que fazer rádio é muito mais do que falar. É emocionar, informar e respeitar o ouvinte.
Obrigado, meu amigo.
Foi uma honra dividir os microfones com você.
E um privilégio ainda maior dividir a amizade.








