Reportagem nacional faz citações ao ex-prefeito em gravações e seis operações da PF durante sua gestão. Furlan nega qualquer vínculo com organização criminosa

A poucos dias das eleições, as investigações sobre a presença de pessoas apontadas como integrantes de organizações criminosas na Prefeitura de Macapá voltaram ao noticiário nacional. Desta vez, o assunto ganhou destaque em reportagem do jornal O Estado de S. Paulo (Estadão) sobre o cenário político do Amapá diante das perspectivas econômicas abertas pela exploração de petróleo na Margem Equatorial.
Já na apresentação da reportagem, o Estadão chama atenção para a situação do ex-prefeito de Macapá e candidato ao Governo do Estado, Antônio Furlan (PSD). Segundo o jornal, o “candidato que lidera corrida ao governo é acusado de abrir portas para facção criminosa; ele nega”.
A publicação relaciona o episódio a um cenário mais amplo de instabilidade política e administrativa nos municípios amapaenses que deverão receber os maiores impactos da futura cadeia do petróleo. No caso de Macapá, o jornal destaca tanto as investigações envolvendo a antiga administração municipal quanto a situação eleitoral de Furlan no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Estadão: pelo menos 13 pessoas da FTA teriam sido nomeadas
Ao abordar especificamente as investigações sobre crime organizado, o Estadão afirma que o inquérito considerado mais sensível na campanha aponta indícios de envolvimento de integrantes da Família Terror do Amapá (FTA) com a gestão Furlan na Prefeitura de Macapá.
Segundo a reportagem, pelo menos 13 pessoas apontadas como integrantes do grupo criminoso teriam sido nomeadas para cargos comissionados, enquanto gravações fariam referência a repasses mensais destinados a faccionados.
O número publicado pelo Estadão é ligeiramente diferente do divulgado anteriormente pela CNN Brasil. Em reportagem de 16 de setembro, a CNN informou, com base em investigação da Polícia Civil, que ao menos 12 pessoas apontadas como ligadas ao crime organizado foram formalmente contratadas ou nomeadas na Prefeitura entre 2021 e 2026. Segundo fonte ouvida pela emissora, 11 seriam integrantes da FTA e uma teria ligação com o Comando Vermelho.
As informações são provenientes de investigações policiais e não significam, por si, que Furlan tenha participado ou tivesse conhecimento de eventual atuação criminosa dos servidores.
Ex-prefeito aparece citado em gravações
A reportagem do Estadão traz ainda outros elementos encontrados durante as investigações.
Segundo o jornal, Furlan foi mencionado em gravações obtidas em celulares de pessoas apontadas como integrantes da FTA. A reportagem também registra que um vídeo no qual o então prefeito elogiava uma liderança posteriormente apontada pela polícia como integrante da organização e que concorreu a vereador em 2024 circulou em grupos relacionados à facção.
O personagem citado é Luanderson de Oliveira Alves, conhecido como “Caçula”, que disputou uma cadeira na Câmara Municipal pelo PSD, mesmo partido de Furlan.
Em setembro, o TRE-AP cassou o diploma de suplente de vereador de Luanderson e declarou sua inelegibilidade por oito anos. Segundo a decisão, ele se beneficiou da estrutura e do domínio territorial da FTA na eleição municipal de 2024, caracterizando abuso de poder econômico.
Caçula aparece em fotografia ao lado de Furlan

O Estadão também publicou uma fotografia de Furlan ao lado de Luanderson “Caçula”. A imagem integra a reportagem nacional e aparece na página 5 do material analisado.
Segundo o jornal, informações da inteligência da Polícia Civil apontam que Caçula teria assumido o comando do conjunto habitacional Macapaba após a morte de Biafra Brian da Silva, conhecido como “Gordinho”, ocorrida durante confronto com policiais no cumprimento de mandado de prisão.
Documentos policiais citados pelo Estadão descrevem atuação da FTA no Macapaba por meio de “domínio armado” e cobrança de “taxa de proteção” de moradores e comerciantes mediante violência e grave ameaça.
Ex-subsecretário preso também aparece com Furlan
Outro nome destacado pela reportagem é Jesaias Silva, o “Jeiza”, que ocupou o cargo de subsecretário de Zeladoria Urbana na Prefeitura.
Segundo o Estadão, Jeiza mantinha interlocução com Caçula e foi preso pela Polícia Federal por suspeita de ligação com a facção. A reportagem registra ainda que os dois aparecem em fotografias com o então prefeito.
Esse conjunto de informações passou a ocupar espaço relevante na campanha eleitoral, especialmente depois que investigações sobre a presença de pessoas apontadas como integrantes de facções na administração municipal ganharam repercussão nacional.
Inquérito não aponta participação direta de Furlan
A própria reportagem do Estadão, entretanto, faz uma ressalva fundamental.
De acordo com o trecho do inquérito reproduzido pelo jornal, apesar das referências ao candidato, não foi identificada participação direta de Furlan nem elementos demonstrando que ele tivesse conhecimento de eventual participação no esquema.
Essa informação é relevante para delimitar o que as investigações demonstraram até agora: há apurações envolvendo pessoas que trabalharam na administração municipal e referências ao ex-prefeito, mas o material citado pelo Estadão não atribui a Furlan participação direta no esquema investigado.
A CNN também registrou a posição da defesa segundo a qual o delegado responsável pela Draco-AP declarou que as investigações conduzidas pela unidade não apontariam indícios relacionando diretamente Furlan às facções.
Furlan nega relação com facção
Furlan nega qualquer envolvimento com organizações criminosas.
Sua defesa argumenta que um candidato participa de inúmeros eventos e tira fotografias com grande quantidade de pessoas, não sendo possível utilizar isoladamente esses registros como prova de relação com atividades criminosas.
Sobre Jeiza, a defesa afirmou ao Estadão que ele foi exonerado assim que a Prefeitura tomou conhecimento das suspeitas existentes contra ele.
Em manifestação anterior reproduzida pela CNN, Furlan afirmou que todas as nomeações de sua administração obedeceram aos procedimentos legais e administrativos e que, numa estrutura composta por milhares de servidores, não seria possível ao prefeito conhecer aspectos da vida pessoal de cada pessoa contratada ou nomeada. Também afirmou que parte das indicações para cargos de confiança partia de vereadores, deputados e outras lideranças políticas.
Seis operações da PF durante a gestão, segundo o Estadão
A reportagem nacional também chama atenção para outro dado relacionado ao período em que Furlan administrou Macapá.
Segundo o Estadão, a gestão municipal foi alvo de seis operações da Polícia Federal entre 2021 e 2026. O jornal acrescenta que a defesa afirma que Furlan não foi indiciado nas investigações e que o candidato atribui as ações a uma perseguição do grupo político adversário.
Uma dessas investigações está relacionada às suspeitas de irregularidades envolvendo recursos destinados à construção do Hospital Municipal.
O Estadão registra que Furlan foi afastado da Prefeitura em 4 de março por determinação do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, no âmbito de investigação que apura suspeitas de desvio de emendas destinadas à construção do hospital e fraude em licitação. Segundo o material citado pelo jornal, a cúpula do Executivo municipal teria cooperado “direta ou indiretamente” para os desvios investigados.
Furlan renunciou à Prefeitura no dia seguinte, afirmando que deixava o cargo para se preparar para disputar o Governo do Estado.
Candidatura também está sob análise do TSE
A reportagem do Estadão associa ainda o cenário das investigações a outra incerteza envolvendo Furlan: seu registro de candidatura.
O jornal registra que o ministro Dias Toffoli, relator do processo no TSE, votou pelo indeferimento da candidatura. O julgamento foi interrompido após pedido de vista do ministro André Mendonça.
A controvérsia está relacionada à renúncia de Furlan à Prefeitura. Segundo o Estadão, o Ministério Público Eleitoral sustenta que uma representação para abertura de processo político-administrativo havia sido protocolada na Câmara antes da renúncia e que a situação poderia atrair hipótese de inelegibilidade.
A defesa sustenta posição oposta: afirma que o processo somente apareceu na Câmara depois da renúncia e alega que teria ocorrido fraude na data de protocolo. Segundo a reportagem, o caso relacionado à suposta fraude também chegou à Justiça comum.
Amapá chega às urnas sob holofotes nacionais

A reportagem do Estadão insere toda essa disputa em um contexto maior: a transformação econômica que poderá ocorrer no Amapá com a exploração de petróleo na Margem Equatorial.
O jornal percorreu Macapá, Santana e Oiapoque para mostrar como municípios diretamente impactados pelos futuros investimentos convivem, simultaneamente, com episódios recentes de instabilidade administrativa e eleitoral. A reportagem faz parte da série “Amazônia, a nova fronteira do petróleo”.
No caso da capital, porém, a publicação nacional colocou no centro da reportagem um assunto que vem dominando parte da reta final da eleição estadual: a presença, durante a administração Furlan, de pessoas que investigações policiais apontam como ligadas ao crime organizado.








