Empresário investigado por improbidade no Amapá aparece entre “clientes” de escritório de Flávio Bolsonaro que faturou R$ 13,7 milhões

Marcos Antonio Grecco, empresário do setor de energia que foi alvo de ação relacionada à transferência de uma concessão ferroviária no Amapá, contratou serviços advocatícios do senador

Marcos Antonio Grecco é fundador do GNPW Group, grupo empresarial com atuação no setor de energia

O empresário Marcos Antonio Grecco, fundador do GNPW Group e alvo de uma ação de improbidade administrativa no Amapá, aparece entre os clientes do escritório de advocacia do senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A informação foi revelada em reportagem dos jornalistas Artur Rodrigues e Fabio Serapião, do UOL, publicada nesta terça-feira (20) e reproduzida pela Folha de S.Paulo.

Segundo a investigação jornalística, o escritório de Flávio Bolsonaro emitiu ao menos R$ 13,7 milhões em notas fiscais entre janeiro de 2023 e julho de 2026, período em que o parlamentar exercia seu mandato no Senado Federal.

O levantamento identificou 62 comprovantes fiscais. Na maioria dos documentos, a descrição dos serviços prestados se limita à expressão “assessoria jurídica”, sem detalhamento sobre os trabalhos realizados.

A reportagem também pesquisou processos nos sistemas dos tribunais estaduais, federais e das instâncias superiores da Justiça brasileira. Apesar do volume financeiro registrado, os jornalistas conseguiram localizar apenas um processo judicial em que Flávio Bolsonaro atuou para um dos clientes identificados nas notas fiscais.

A investigação ressalta, entretanto, que a advocacia não se limita à representação judicial, podendo envolver consultorias, pareceres e orientações jurídicas que não resultam necessariamente em processos.

A presença do empresário ligado ao Amapá entre os clientes chama a atenção pela atuação de Grecco no setor energético e pelo histórico de uma ação de improbidade administrativa relacionada à transferência do controle de uma concessão ferroviária no estado. O processo de improbidade foi arquivado em julho de 2022, conforme informou o UOL.

Alvo de ação de improbidade administrativa no Amapá

Marcos Antonio Grecco é fundador do GNPW Group, grupo empresarial com atuação no setor de energia.

De acordo com a reportagem do UOL, ele também possui vínculos empresariais com a Evolution Power Partners, companhia que conquistou contratos estimados em R$ 17 bilhões em um leilão emergencial de energia realizado em 2021, durante o governo de Jair Bolsonaro.

O caso estabelece uma conexão entre o histórico de atuação empresarial no Amapá e a relação profissional posteriormente mantida com o escritório do senador Flávio Bolsonaro.

Empresário confirma contratação de Flávio Bolsonaro

Procurado pelo UOL, Marcos Antonio Grecco confirmou que contratou os serviços advocatícios do senador em 2024.

Segundo o empresário, a contratação ocorreu para sua representação em um processo judicial no qual figurava como parte.

Grecco afirmou que a atuação de Flávio Bolsonaro foi formalizada por meio de procuração juntada aos autos.

O empresário também declarou que a contratação não teve qualquer relação com os leilões de energia ou com o GNPW Group.

Em sua manifestação, Grecco defendeu a possibilidade legal de parlamentares exercerem a advocacia, desde que observadas as restrições constitucionais aplicáveis.

Ele também questionou a divulgação de informações fiscais e bancárias, afirmando que eventuais vazamentos ilegais poderão resultar na adoção de medidas judiciais.

A reportagem consultada não informa o valor específico pago por Grecco ao escritório de Flávio Bolsonaro.

UOL analisou 62 notas fiscais

Um dos principais pontos da investigação jornalística é a diferença entre o volume de notas fiscais emitidas pelo escritório e a quantidade de processos judiciais identificados.

Os jornalistas examinaram 62 comprovantes fiscais e realizaram buscas em sistemas dos tribunais estaduais, da Justiça Federal e das instâncias superiores.

Apesar da pesquisa, localizaram somente um processo judicial relacionado à atuação de Flávio Bolsonaro para um cliente identificado nos documentos analisados.

O processo encontrado envolve a Simas Industrial de Alimentos, fabricante de doces do Rio Grande do Norte, que aparece entre os principais clientes do escritório.

A empresa foi responsável por pagamentos documentados que somam R$ 3,3 milhões, distribuídos em três notas fiscais emitidas entre janeiro de 2023 e dezembro de 2024.

A atuação do senador estava relacionada a uma disputa societária que chegou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ).

O levantamento também constatou que aproximadamente metade das notas fiscais foi emitida para outros advogados ou escritórios de advocacia.

Na maioria dos documentos, os serviços foram descritos apenas como assessoria jurídica, sem indicação dos processos ou especificação das atividades desenvolvidas.

O UOL procurou os clientes para esclarecer a natureza das contratações, mas, segundo a reportagem, as respostas obtidas não permitiram identificar detalhadamente todos os serviços prestados.

A ausência de processos judiciais identificados não comprova que os serviços não tenham sido realizados. A legislação permite a prestação de serviços advocatícios extrajudiciais, incluindo consultorias, elaboração de pareceres e orientação jurídica.

Candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ)

Escritório faturou milhões durante mandato no Senado

O escritório Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia foi constituído em abril de 2021.

Segundo o levantamento, o senador é o único titular da sociedade, que possui endereço registrado em sua residência, no Lago Sul, em Brasília.

A empresa tem como administradora Letícia Caetano dos Reis e não possui outros funcionários, conforme as informações levantadas pelo UOL.

Entre janeiro de 2023 e julho de 2026, a sociedade emitiu notas fiscais que somam pelo menos R$ 13,7 milhões.

O maior volume de pagamentos documentados envolve outros escritórios de advocacia.

Entre os principais contratantes identificados estão:

  • Nilo & Almeida Advogados Associados: R$ 4 milhões em duas notas fiscais emitidas em 2025.
  • Simas Industrial de Alimentos: R$ 3,3 milhões em três notas fiscais.
  • Escritórios ligados ao advogado Otto Medeiros: R$ 2,1 milhões em documentos fiscais.
  • Escritório de Daniel Bettamio Tesser: R$ 970 mil em notas emitidas entre dezembro de 2025 e março de 2026.

Edvaldo Nilo de Almeida, sócio do escritório responsável pelos pagamentos de R$ 4 milhões, foi nomeado pelo então presidente Jair Bolsonaro para a Comissão de Ética Pública da Presidência da República, em 2022.

Ao UOL, o advogado afirmou que os pagamentos decorreram de contrato celebrado em abril de 2025 e que os serviços foram prestados conjuntamente pelos escritórios a clientes privados.

Segundo ele, as atividades não envolveram recursos públicos nem participação de entes federativos.

Os valores apresentados correspondem às notas fiscais examinadas pela reportagem, não constituindo, por si só, comprovação de irregularidade financeira.

Polícia Federal investiga movimentações financeiras do escritório

A divulgação dos documentos ocorre em meio a uma investigação da Polícia Federal sobre movimentações financeiras relacionadas ao escritório de Flávio Bolsonaro.

Segundo o UOL, um inquérito foi aberto recentemente para examinar transações da sociedade de advocacia.

O procedimento está sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

A investigação teve origem em indícios identificados pela Polícia Federal sobre um possível compartilhamento de contas bancárias entre Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz, que mantém relação de amizade com o senador.

Os dois negam o compartilhamento.

A suspeita levou a Polícia Federal a solicitar a abertura de uma investigação relacionada a possíveis conexões com fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Os documentos fiscais examinados pelos jornalistas indicam pagamentos destinados a contas do escritório no Santander e no Banco de Brasília (BRB).

De acordo com a reportagem, uma das contas mencionadas nas notas fiscais coincide com aquela que a Polícia Federal investiga por suspeita de compartilhamento de titularidade.

Senadores podem exercer advocacia, mas existem restrições legais

A legislação brasileira não proíbe automaticamente que senadores exerçam atividades profissionais paralelas ao mandato parlamentar.

Entretanto, a Constituição Federal estabelece limitações destinadas a prevenir conflitos de interesses entre o exercício do mandato e determinadas atividades privadas.

No caso da advocacia, parlamentares estão sujeitos a restrições específicas, incluindo impedimentos para atuar em determinadas causas envolvendo órgãos públicos, empresas públicas e outras entidades abrangidas pela legislação.

Também existem limitações relacionadas ao exercício de funções na Mesa Diretora do Senado.

A investigação jornalística não demonstra, por si só, que as contratações identificadas tenham violado essas regras.

A legalidade de cada atuação depende das características dos serviços prestados, da natureza dos clientes e da existência de eventuais impedimentos profissionais ou constitucionais.

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