Levantamento nacional aponta 23 candidaturas questionadas pelo Ministério Público Eleitoral em seis estados; caso ocorre em meio às investigações sobre infiltração da Família Terror Amapá na política amapaense

O Amapá está entre os seis estados brasileiros onde o Ministério Público Eleitoral identificou candidatura com suposto vínculo com o crime organizado nas eleições de 2026. O dado faz parte de levantamento nacional e reforça o alerta sobre a tentativa de infiltração de organizações criminosas na política amapaense.
Levantamento aponta 23 candidaturas impugnadas em seis estados com base em suspeitas de ligação com organizações criminosas. Os casos estão distribuídos pelo Rio de Janeiro, com 13 impugnações; Paraíba, com quatro; São Paulo e Mato Grosso do Sul, com duas cada; além de Amapá e Bahia, com uma candidatura cada.
O levantamento ganha relevância no Amapá poucas semanas depois de a própria Justiça Eleitoral reconhecer, em outro processo, que a estrutura territorial da Família Terror Amapá (FTA) foi utilizada para beneficiar uma candidatura a vereador nas eleições municipais de Macapá em 2024.
Crime organizado
Em todo o país o combate à infiltração de facções e outras organizações criminosas no processo eleitoral tornou-se uma das prioridades do Ministério Público Eleitoral nas eleições deste ano.
O MP Eleitoral apresentou 974 impugnações de registros de candidatura por diferentes motivos. Desse total, 23 foram identificadas como relacionadas especificamente à tentativa de impedir a participação de candidatos vinculados ao crime organizado.
No Amapá, foram apresentadas 17 impugnações pelo Ministério Público Eleitoral por diferentes fundamentos. Uma delas aparece no levantamento nacional relacionado especificamente ao crime organizado.
Justiça reconheceu uso da FTA para conseguir votos
Em agosto deste ano, o Tribunal Regional Eleitoral do Amapá (TRE-AP) cassou o diploma de suplente de vereador de Luanderson de Oliveira Alves, o “Caçula”, e declarou sua inelegibilidade pelo período de oito anos.
Luanderson é filiado ao PSD (Partido Social Democrático), legenda de Antônio Paula de Oliveira Furlan, o “Dr. Furlan”, prefeito de Macapá por dois mandatos consecutivos, entre 2021 e 2026, e candidato ao governo do Amapá.
A decisão também atingiu Rosemiro de Carvalho Freitas, o “Bira”, apontado como intermediário da articulação.
A procuradora regional eleitoral no Amapá, Sarah Cavalcanti, detalhou a dinâmica entre Luanderson e Rosemiro durante o julgamento do recurso no TRE-AP.
“O Rosemiro é uma liderança conhecida da facção. Não é alguém periférico dentro da estrutura. É alguém que realmente toma decisões, que define encaminhamentos. E, com ele, Luanderson trava uma série de diálogos para poder fazer a mobilização do que eles chamam de ‘cabeças de bairro’ — pessoas que lideram aquelas comunidades, que trazem benefícios e que são extremamentes rotativas”, relatou Sarah.
Ainda de acordo com Sarah, Luanderson pediu a Rosemiro que mobilizasse os líderes comunitários em diversas ocasiões.
“O candidato Luanderson, quando quis se candidatar, inclusive ele é faccionado, ele buscou apoio da facção por meio de Rosemiro e Rosemiro confirmou que daria esse apoio da facção a ele”, narrou Sarah.
Abuso de Poder
O caso é emblemático porque a Justiça Eleitoral reconheceu abuso de poder econômico mediante utilização da estrutura e do domínio territorial da Família Terror Amapá para beneficiar uma candidatura nas eleições de 2024.
Segundo o Ministério Público Eleitoral, interceptações telefônicas autorizadas judicialmente mostraram que Caçula buscou a intermediação de Bira para negociar apoio político com lideranças da FTA.
A organização exerceria controle sobre determinadas comunidades, especialmente no Residencial Macapaba. Esse domínio teria sido utilizado para influenciar eleitores e favorecer eleitoralmente o candidato.
Na avaliação apresentada pelo Ministério Público e acolhida pelo TRE-AP, a atuação da organização criminosa transformou áreas sob influência da facção em verdadeiros “currais eleitorais”, comprometendo a liberdade do voto.
Caso Caçula chegou a Furlan

O episódio também ganhou dimensão política porque Caçula era ligado ao grupo do então prefeito de Macapá e atual candidato ao Governo do Amapá, Dr. Furlan (PSD).
Durante as eleições municipais de 2024, Caçula participou de atividades políticas ao lado de Furlan, que naquele momento disputava a reeleição.
Interceptações obtidas durante as investigações também registraram Caçula fazendo referência ao então prefeito Antônio Furlan ao falar sobre sua entrada na política.
O material divulgado sobre as investigações indica que Caçula relatou ter sido incentivado por Furlan a ingressar na disputa eleitoral.
Vinculo
Reportagem do Jornal da Record que foi ao ar no último dia 10 revela integrantes de grupos criminosos exerciam cargos de confiança na Prefeitura de Macapá.
Entre os anos de 2021 e 2025, durante a gestão do ex-prefeito Dr. Furlan. Integrantes da Família Terror do Amapá (FTA) foram formalmente contratados, nomeados para cargos de confiança na Prefeitura Municipal de Macapá (PMM).
A reportagem da Record também afirmou que o candidato a vereador em 2024, Luanderson Caçula, fez delação premiada junto ao Ministério Público Federal, em Macapá. O Portal IA apurou que o procedimento formalizado no órgão está sob a condução da procuradora da República Sarah Cavalcante.
Caçula foi preso na Operação Herodes, da Polícia Federal, dias antes da eleição, por causa dos crimes eleitorais com apoio da facção. Em entrevista, ele fez sérias acusações ao prefeito da época

Ex-subsecretário da gestão também entrou na investigação
Outro personagem relacionado à antiga administração municipal também apareceu nas investigações sobre a FTA.
Jesaias Silva e Silva, conhecido como “Jesa” ou “Geza”, ocupou o cargo de subsecretário municipal de Zeladoria Urbana durante a administração Furlan e foi alcançado pelas investigações da Operação Herodes.
A operação apurou a possível participação de organização criminosa no processo eleitoral, incluindo suspeitas de coação de eleitores, financiamento de candidatura e tentativa de utilização do controle territorial exercido pela facção para obtenção de votos.
Segundo as informações apresentadas pela emissora, pelo menos 12 pessoas apontadas como vinculadas à facção estariam na folha de pagamento do Município, em funções exercidas na capital e nos distritos. O número foi atribuído pela reportagem às investigações e não representa, por si só, condenação ou reconhecimento judicial de vínculo criminal dessas pessoas.
Do alerta de 2024 às eleições de 2026
A inclusão do Amapá no levantamento nacional sobre candidaturas vinculadas pelo Ministério Público ao crime organizado mostra que o problema identificado nas eleições municipais de 2024 permanece no radar das autoridades no pleito de 2026.
O cenário coloca o estado dentro de uma preocupação nacional: a transformação do poder territorial, econômico e coercitivo das organizações criminosas em influência política e eleitoral.
A disputa deixou de ser apenas pelo controle de áreas para o tráfico e outras atividades ilegais. Para as autoridades eleitorais, o risco agora é que esse poder seja convertido em votos, mandatos e influência dentro das estruturas do Estado.








