Matança de botos-cor-de-rosa no Ariri leva MP-AP a intensificar investigação sobre crime ambiental

Quatro animais foram encontrados mortos na região do rio Matapi; suspeita é de que partes dos corpos tenham sido retiradas para comércio clandestino e práticas ligadas a crendices populares

Os animais foram encontrados por moradores da comunidade apresentando perfurações compatíveis com golpes de arpão e mutilações na região genitalFoto internet

A morte de quatro botos-cor-de-rosa na comunidade do Ariri, localizada na região do rio Matapi, zona rural de Macapá, mobilizou órgãos ambientais e o Ministério Público do Estado do Amapá (MP-AP), que instaurou inquérito civil para aprofundar as investigações sobre um dos mais graves casos recentes de violência contra a fauna silvestre no estado.

Os animais foram encontrados por moradores da comunidade apresentando perfurações compatíveis com golpes de arpão e mutilações na região genital, circunstâncias que afastam, em princípio, a hipótese de morte natural e reforçam a suspeita de ação humana deliberada. As informações chegaram inicialmente ao Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (IEPA), que comunicou o caso às autoridades competentes.

Segundo relatos de moradores repassados aos órgãos de fiscalização, existe a suspeita de que os animais tenham sido mortos para retirada de órgãos reprodutivos, utilizados ilegalmente como amuletos ou em supostos rituais de sedução e “simpatias”, prática baseada em antigas crendices populares ainda presentes em algumas regiões amazônicas. Outra hipótese considerada é a caça ilegal por arpão ou a morte dos animais em razão de conflitos com atividades pesqueiras.

MP acompanha investigações

Diante da gravidade dos fatos, o promotor de Justiça Marcelo Moreira determinou a instauração de procedimento investigatório, posteriormente convertido em inquérito civil, com o objetivo de acompanhar as apurações, identificar os responsáveis e cobrar providências dos órgãos ambientais e de segurança pública.

Promotor de Justiça Marcelo Moreira determinou a instauração de procedimento investigatórioFoto Secom GEA

O Ministério Público requisitou diligências ao Batalhão Ambiental da Polícia Militar, à Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) e à Polícia Civil.

Durante as primeiras fiscalizações, equipes ambientais localizaram dois dos animais já em avançado estado de decomposição. Apesar das diligências realizadas na região, até aquele momento não haviam sido identificados suspeitos ou elementos suficientes para responsabilização criminal. A Polícia Civil instaurou inquérito para investigar o caso.

A Sema informou ainda ter realizado novas ações de fiscalização na região após o episódio, sem registro de novas ocorrências semelhantes, embora permaneça o monitoramento da área.

Espécie é símbolo da Amazônia

O boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis) é um dos principais símbolos da biodiversidade amazônica e possui proteção integral da legislação ambiental brasileira. A captura, perseguição, mutilação ou morte da espécie configura crime ambiental, sujeito a sanções penais, administrativas e à obrigação de reparação dos danos causados ao meio ambiente.

Pesquisas científicas já comprovaram a presença da espécie em milhares de quilômetros de rios do Amapá, demonstrando sua importância ecológica para o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos da Amazônia.

Alerta para preservação

O episódio chamou a atenção de pesquisadores e órgãos de fiscalização sobre a necessidade de reforçar ações permanentes de educação ambiental, combate ao comércio ilegal de partes de animais silvestres e fiscalização nas comunidades ribeirinhas.

Além do prejuízo ambiental, especialistas destacam que a morte de botos representa um impacto direto sobre o equilíbrio dos rios amazônicos, já que a espécie ocupa posição importante na cadeia ecológica e é considerada um indicador da qualidade ambiental dos ecossistemas de água doce.

Enquanto as investigações prosseguem, o Ministério Público busca esclarecer a motivação das mortes, identificar os autores e responsabilizar criminalmente os envolvidos, evitando que crimes dessa natureza se repitam na região do Ariri.

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