
Um relatório divulgado em 26 de fevereiro pelo Comitê Seleto sobre o Partido Comunista Chinês da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos alega que o Brasil abriga uma instalação ligada ao programa espacial chinês que, segundo os parlamentares americanos, funcionaria como uma base militar “não oficial” ou com capacidades de uso duplo.
A estrutura em questão é a Tucano Ground Station (Estação Terrestre Tucano), resultado de uma parceria firmada em 2020 entre a startup brasileira Ayla Space (também referida como Ayla Nanosatellites) e a empresa chinesa Beijing Tianlian Space Technology Co. Ltd., vinculada à Academia Chinesa de Tecnologia Espacial e à Corporação de Ciência e Tecnologia Aeroespacial da China.
De acordo com o documento intitulado “Pulling Latin America into China’s Orbit” (“Atraindo a América Latina para a Órbita da China”), a estação está localizada na sede da Ayla Space, em Salvador, na Bahia, embora o relatório fale que a localização exata é desconhecida além da região associada ao nome “Tucano”. Oficialmente, o projeto visa receber e processar dados de satélites de observação da Terra para monitoramento ambiental e comercial no território brasileiro.

No entanto, os congressistas alegam que a infraestrutura tem potencial militar: permitiria à China rastrear objetos espaciais em tempo real, identificar ativos militares estrangeiros na América do Sul, coletar inteligência e até influenciar a doutrina espacial militar brasileira. O relatório classifica a instalação como “não oficial” e a integra a uma suposta rede de pelo menos 10 bases semelhantes na região, parte de uma estratégia maior de Pequim para alterar o equilíbrio de poder em uma área historicamente alinhada aos EUA.
O texto destaca que a Beijing Tianlian fornece comunicações de longa duração e alta cobertura para voos espaciais tripulados e satélites de reconhecimento, enquanto a parceria inclui memorandos para troca de dados operacionais entre antenas. Os autores argumentam que tais sistemas de observação de “espaço profundo” possuem uso duplo, com aplicações civis que podem ser convertidas em ferramentas de vigilância estratégica.

O Brasil é mencionado 15 vezes no relatório, frequentemente ao lado de outros países sul-americanos, em contextos de influência chinesa via infraestrutura, portos, ferrovias, energia e telecomunicações. O documento também cita um laboratório de radioastronomia na Serra do Urubu (entre Paraíba e Pernambuco), integrado à base industrial de defesa chinesa, como outro exemplo de cooperação que poderia beneficiar o setor militar de Pequim.
Até o momento, não há resposta oficial do governo brasileiro. A CBN consultou o Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores) sobre as alegações, mas não obteve posicionamento. A Ayla Space também não se pronunciou publicamente sobre as acusações. O relatório não apresenta evidências técnicas públicas concretas (como imagens de satélite ou interceptações), baseando-se em interpretações de parcerias e laços institucionais.








