‘Stonehenge da Amazônia’: rochas gigantes no AP revelam como povos antigos observavam o sol

Sítio arqueológico em Calçoene indica o uso da estrutura como observatório astronômico e espaço de rituais funerários pré-coloniais

Por Thiago Freitas

Na cidade de Calçoene, localizada no norte do Amapá, um intrigante conjunto de pedras organizado por povos antigos levanta questionamentos sobre a astronomia indígena, rituais e a preservação da memória ancestral. Conhecido popularmente como o “Stonehenge da Amazônia”, o complexo conta com 127 blocos de granito gigantes dispostos em formato circular.

O monumento fica situado no Parque Arqueológico do Solstício, em uma área rural próxima ao Igarapé Rêgo Grande. A estrutura circular possui aproximadamente 30 metros de diâmetro, com algumas rochas que alcançam até 4 metros de altura, posicionadas de forma vertical, inclinada ou horizontal por ação humana intencional.

O principal indício da função astronômica do sítio ocorre nos dias 21 ou 22 de dezembro, durante o solstício de inverno. Nesse momento, o Sol se alinha perfeitamente com uma formação conhecida como “pedra do furo”. Por volta das 6h20 da manhã, a luz solar atravessa uma abertura circular exata na rocha e projeta o feixe luminoso diretamente em direção a outra pedra localizada no lado oposto do círculo.

Localização Estratégica

Identificado cientificamente em pesquisas como Sítio AP-CA-18 Rêgo Grande I, o complexo está posicionado a apenas 2°37’12” N da Linha do Equador. Especialistas apontam que essa localização geográfica privilegiada favorecia a observação de fenômenos equinociais com altíssima precisão visual.

Embora o apelido jornalístico faça alusão ao famoso monumento megalítico da Inglaterra, cientistas alertam que a comparação serve apenas como referência visual, visto que as origens e os contextos históricos dos povos construtores são completamente distintos.

Desafios de Infraestrutura e Preservação

Apesar do valor cultural e histórico, o “Stonehenge da Amazônia” ainda enfrenta barreiras para consolidação como polo de turismo e estudo. O acesso ao sítio exige o deslocamento por um ramal de terra que conecta a sede municipal de Calçoene à Vila do Cunani, mantendo o patrimônio relativamente isolado do grande público.

Um projeto de lei que pretendia declarar o local como patrimônio estadual foi vetado pela gestão estadual do Amapá, baseando-se em parecer técnico do Núcleo de Pesquisa Arqueológica do IEPA. A justificativa apontou que o espaço ainda carece de sistemas consolidados de gestão, zoneamento e infraestrutura de salvaguarda indispensáveis para a categoria de parque arqueológico.

Recentemente, um protocolo de intenções firmado entre o Iphan e o Governo do Amapá, integrado às ações do Novo PAC, prevê investimentos para a musealização, preservação estruturada e fomento do turismo ecológico e cultural da região, buscando equilibrar a visibilidade do sítio e a proteção aos sensíveis vestígios pré-coloniais.

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