*Por Yuri Alesi

Existe uma frase que todo brasileiro já ouviu alguma vez na vida “Oiapoque ao Chuí”. Ela foi incorporada ao imaginário nacional como uma forma de representar a extensão territorial do país, mas, curiosamente, quase sempre reduziu Oiapoque a um ponto extremo do mapa, o que para milhões de brasileiros, Oiapoque se tornou apenas o lugar onde o Brasil termina, e eu penso exatamente o contrário.
Para mim, Oiapoque nunca foi o fim do Brasil, mas sim sempre foi o lugar onde o Brasil começa. Começa porque é aqui que o país faz sua única fronteira terrestre com a União Europeia. É daqui que se atravessa uma ponte internacional para um território francês. É daqui que o Brasil conversa diariamente com outras culturas, outros idiomas, outros sistemas jurídicos e outras economias. É daqui que observamos, muitas vezes antes do restante do país, as oportunidades e os desafios de viver em uma verdadeira região transfronteiriça.
Talvez seja justamente por viver essa realidade desde criança que sempre me incomodou ver Oiapoque sendo lembrado apenas por suas dificuldades. Durante décadas, a cidade foi retratada quase exclusivamente pelos problemas de infraestrutura, pelo isolamento geográfico ou pelas limitações impostas pela distância dos grandes centros. Tudo isso existe, seria ingenuidade negar. Mas também sempre existiu um enorme potencial que poucas pessoas conseguiram enxergar.
As cidades que prosperam não são necessariamente aquelas que possuem mais recursos naturais ou maior população. Elas prosperam porque conseguem compreender qual é a sua vocação e a vocação de Oiapoque nunca foi apenas ser uma cidade de fronteira, sua vocação é ser uma cidade de conexão.
Foi exatamente essa convicção que me levou, a apresentar o projeto que deu origem à Lei Municipal nº 755, de 2024, instituindo oficialmente o Festival da Fronteira e a Feira Internacional de Negócios de Oiapoque. Naquele momento, meu objetivo não era simplesmente criar mais um evento no calendário municipal. O que pretendia era muito mais ambicioso, transformar uma ideia em uma política pública permanente de desenvolvimento econômico, integração regional e projeção internacional de Oiapoque.
Durante muito tempo, discutimos a fronteira apenas como um desafio administrativo. Falávamos sobre fiscalização, imigração, segurança, saúde, transporte ou infraestrutura. Todas essas pautas são importantes, mas havia uma pergunta que permanecia sem resposta a de como transformar a condição geográfica de Oiapoque em uma vantagem competitiva?
Quando olhamos para Oiapoque a partir de Brasília, estamos observando um município distante da capital federal, porém, quando olhamos para Oiapoque a partir do mapa da América do Sul, percebemos algo completamente diferente, isso porque, estamos no centro de uma região estratégica formada pelo Amapá, Guiana Francesa, Suriname, Guiana, norte do Pará e Caribe. Estamos próximos de mercados consumidores, corredores logísticos, centros de pesquisa, universidades, agências espaciais, investimentos internacionais e uma economia que movimenta bilhões de euros todos os anos e essa mudança de perspectiva altera completamente a discussão.
Não devemos perguntar apenas o que Oiapoque precisa receber, devemos mudar o foco para, o que Oiapoque pode oferecer, e, é exatamente nesse ponto que a Feira Internacional de Negócios assume uma importância muito maior do que muitas pessoas imaginam. Infelizmente, ainda existe uma cultura muito comum no Brasil de enxergar feiras apenas como exposições comerciais. Imaginam alguns estandes, apresentações culturais, venda de produtos regionais e alguns dias de programação. Nada contra isso. Pelo contrário, esses elementos são fundamentais. Mas limitar uma feira internacional a esse conceito significa desperdiçar seu verdadeiro potencial.
As grandes feiras econômicas do mundo nunca foram apenas feiras, elas são ambientes onde governos conversam com empresários, onde universidades apresentam pesquisas para investidores, onde pequenas empresas encontram compradores internacionais, onde startups conseguem financiamento, onde cadeias produtivas são organizadas e onde cidades apresentam seus projetos.
Por isso, sempre acreditei que Oiapoque precisava criar um espaço permanente para reunir empresários brasileiros, franceses, guianenses, surinameses, investidores, universidades, instituições financeiras e governos em torno de uma mesma mesa não para discutir problemas, mas para construir oportunidades.
Nos últimos anos, tenho observado com entusiasmo a evolução da Feira Internacional de Negócios. Cada edição demonstra um amadurecimento institucional importante. A presença crescente de empresas, organismos públicos, entidades empresariais e parceiros internacionais mostra que a ideia começa a produzir resultados concretos. Mas, sinceramente, acredito que ainda estamos apenas nos primeiros capítulos dessa história.
Quando observo a experiência internacional, percebo que as grandes cidades que conseguiram mudar sua realidade econômica tiveram coragem de pensar muito além das necessidades imediatas, pois nenhuma delas cresceu organizando eventos, mas sim por criarem ecossistemas de negócios. Não desejo que a Feira Internacional seja apenas um grande encontro anual, desejo que ela se torne o ponto de partida para uma política permanente de internacionalização da economia do extremo norte brasileiro.
Infelizmente, ainda somos muito imediatistas quando discutimos desenvolvimento, queremos resultados em poucos meses. Esperamos que uma única edição de um evento transforme a economia local. Não é assim que as grandes experiências internacionais aconteceram. As feiras mais importantes do mundo não conquistaram relevância de um ano para o outro. Elas foram amadurecendo ao longo de décadas, consolidando reputação, atraindo novos participantes, ampliando mercados e construindo credibilidade.
Quando penso no futuro da Feira Internacional de Negócios, confesso que minha imaginação vai muito além do formato que conhecemos hoje. Não visualizo apenas uma exposição empresarial. Visualizo um grande fórum internacional permanente sobre o futuro da Amazônia Setentrional. Um ambiente onde governos, universidades, centros de pesquisa, empresários, investidores e organismos internacionais discutam logística, bioeconomia, energia, infraestrutura, turismo, inovação, comércio exterior e integração regional.
A Amazônia costuma ser debatida quase sempre sob a ótica da preservação ambiental. Essa discussão é necessária e continuará sendo. Mas ela não pode ser a única. Precisamos falar também de desenvolvimento, emprego, empreendedorismo, tecnologia e geração de riqueza. Preservar a floresta e desenvolver a economia não são objetivos incompatíveis. Pelo contrário. O verdadeiro desafio da nossa geração é justamente provar que esses dois caminhos podem caminhar juntos.
Oiapoque reúne todas as condições para sediar esse debate, não apenas porque está na Amazônia, mas porque está conectada ao mundo
Quando falo em conexão com o mundo, não me refiro apenas à existência da Ponte Binacional ou à possibilidade de atravessar uma fronteira internacional. Refiro-me à capacidade de Oiapoque assumir um papel que, até hoje, o Brasil ainda não lhe permitiu desempenhar plenamente. Somos, talvez, uma das poucas cidades brasileiras capazes de reunir, em um mesmo espaço, empresários amazônicos, investidores europeus, pesquisadores franceses, produtores rurais, representantes do Caribe e autoridades de diferentes países para discutir o futuro de uma região inteira. Isso não é uma hipótese. É uma condição geográfica e geopolítica que simplesmente existe. A diferença entre sucesso e fracasso está em saber aproveitá-la.
Ao longo dos últimos anos escrevi diversas vezes sobre a importância da integração com a Guiana Francesa. Também acompanhei de perto debates sobre a flexibilização da circulação de pessoas, os avanços diplomáticos entre Brasil e França, a consolidação da Ponte Binacional, as perspectivas da Margem Equatorial e os novos corredores econômicos que começam a se desenhar no norte da América do Sul. Todos esses acontecimentos, embora pareçam independentes, fazem parte de um mesmo processo histórico. Estamos diante de uma mudança silenciosa no posicionamento estratégico do Amapá.
Durante muito tempo, o estado esteve voltado quase exclusivamente para o eixo sul, olhando para Belém e, posteriormente, para Brasília. Evidentemente, essa relação continuará sendo essencial. Mas o século XXI nos oferece uma oportunidade inédita de fortalecer também o eixo norte. Isso significa olhar para Caiena, Paramaribo, Georgetown, o Caribe e, por consequência, para a própria Europa.
Essa mudança de perspectiva pode alterar profundamente a dinâmica econômica do estado e é justamente por isso que acredito que a Feira Internacional de Negócios não deve ser vista apenas como um evento de Oiapoque. Ela é um projeto estratégico para todo o Amapá.
Espero, sinceramente, que daqui a vinte ou trinta anos ninguém se recorde apenas de quem apresentou esse projeto. Espero que as pessoas se lembrem do que ele foi capaz de produzir. Que se recordem das empresas instaladas, dos empregos criados, dos jovens empreendendo, dos pesquisadores desenvolvendo soluções para a Amazônia, dos produtos amapaenses que conquistaram novos mercados e dos investidores que escolheram Oiapoque porque encontraram aqui um ambiente sério, organizado e aberto ao mundo.
Eu me satisfarei com o sentimento e com a convicção que sempre tive, a de acreditar que Oiapoque não precisava se conformar em ser apenas o lugar onde o Brasil termina, mas sim do lugar onde realmente o Brasil começa e de onde o país dialoga com mundo.

*Dr. Yuri Alesi, advogado sênior do escritório Alesi, Guerreiro & Teles, especialista em Direito Tributário e Administração Pública, escritor, mentor de carreiras, palestrante, ex-assesssor especial da Procuradoria-Geral da Assembleia Legislativa do Amapá, ex-defensor público do Estado do Amapá, ex-ouvidor do departamento estadual de trânsito e ex-vereador de Oiapoque-AP.








