Comparação entre os dois lados da fronteira revela diferenças profundas nos índices de violência e na capacidade de investigação dos crimes

O estado do Amapá, que divide mais de 700 quilômetros de fronteira com a Guiana Francesa, apresenta uma realidade alarmante quando o assunto é segurança pública. Segundo análise publicada pelo sociólogo e pesquisador Gabriel Feltran, na Folha de S.Paulo, a taxa de homicídios registrada no estado brasileiro é atualmente cinco vezes maior do que a observada no território ultramarino francês.
A comparação chama atenção porque os dois territórios compartilham a mesma fronteira amazônica e enfrentam desafios semelhantes relacionados à presença de organizações criminosas que atuam dos dois lados da linha internacional. Ainda assim, os resultados em termos de violência letal são radicalmente diferentes.
De acordo com o Atlas da Violência 2026, citado pelo pesquisador, o Amapá voltou a ocupar a posição de estado mais violento do Brasil, registrando taxa de 45,7 homicídios por 100 mil habitantes.
Fronteira compartilhada, resultados opostos
Feltran relata ter realizado pesquisas de campo na região para estudar a expansão de facções criminosas brasileiras em direção à Guiana Francesa. O pesquisador destaca que os mesmos grupos criminosos que atuam no Amapá já possuem presença consolidada no território francês.
Apesar disso, a resposta estatal apresenta resultados muito distintos.
Um dos dados mais expressivos apontados pelo estudo é a capacidade de esclarecimento dos homicídios. Enquanto a Guiana Francesa esclarece cerca de 83% dos assassinatos, no Amapá a taxa de investigação registrada era de apenas 19%, segundo os dados mencionados pelo pesquisador.
A diferença também aparece na atuação policial. Segundo o artigo, 38% dos homicídios registrados no Amapá em 2024 tiveram participação policial, o maior percentual entre todas as unidades da federação brasileira. Na Guiana Francesa, por outro lado, a proporção apontada é de zero.
Violência continua sendo desafio histórico

A publicação reforça uma realidade que há anos preocupa especialistas em segurança pública. Mesmo apresentando redução em alguns indicadores nos últimos anos, o Amapá permanece entre os estados mais violentos do país, convivendo com a expansão de facções criminosas, disputas por territórios e dificuldades estruturais no sistema de investigação criminal.
O contraste com a Guiana Francesa torna-se ainda mais relevante porque os dois territórios estão conectados pela Ponte Binacional sobre o Rio Oiapoque, principal elo terrestre entre o Brasil e o departamento francês.
Comparação acende alerta
Para especialistas, a diferença entre os indicadores demonstra que o combate à violência não depende apenas da localização geográfica ou da presença de organizações criminosas, mas também da capacidade do Estado de investigar crimes, produzir inteligência policial, garantir a responsabilização dos autores e fortalecer políticas públicas de prevenção.
A comparação apresentada por Gabriel Feltran reforça um debate cada vez mais urgente para o Amapá: como reverter os elevados índices de homicídios em um estado que, apesar de compartilhar a mesma fronteira amazônica da Guiana Francesa, convive com níveis de violência muito superiores aos observados do outro lado da fronteira.








