As eleições passaram, mas a luta por dignidade precisa continuar

As bandeiras eleitorais foram recolhidas, mas as bandeiras da justiça social, da dignidade humana e da verdadeira democracia não podem ser guardadas

Entre bandeiras, sorrisos fabricados e promessas esquecidas, o fim das no Amapá deixa uma reflexão: votar é um direito fundamental, mas a verdadeira democracia precisa existir também na vida de quem mais necessita do Estado

Felizmente, não precisamos mais caminhar ou dirigir pelas ruas entre bandeiras que, muitas vezes, representam tudo, menos os interesses da população. Bandeiras que se apresentam como símbolos da democracia, mas que também podem esconder histórias de corrupção, privilégios, oportunismo e desprezo pelo dinheiro público.

Bandeiras que pouco ou nada dizem sobre as lutas em defesa do meio ambiente, contra a criminalidade, a exploração da mão de obra, o abandono das escolas públicas e o sofrimento de quem depende de um hospital público para sobreviver.

Felizmente, não precisamos mais ouvir, a cada esquina, frases prontas, discursos cuidadosamente montados por marqueteiros, promessas que dificilmente serão cumpridas e palavras repetidas tantas vezes que parecem ter perdido qualquer compromisso com a verdade.

Felizmente, não precisamos mais contemplar aqueles sorrisos largos, artificiais, estampados nos vidros dos carros, nos cartazes e nas faixas espalhadas pela cidade. Rostos cuidadosamente produzidos para transmitir honestidade, seriedade, humildade e compromisso com o povo.

Sorrisos que, em alguns casos, escondem personagens muito diferentes daqueles apresentados ao eleitor. Gente que, longe das câmeras e dos palanques, transforma gabinetes em espaços de negociação de interesses particulares, onde o dinheiro público é tratado como patrimônio privado.

Felizmente, não precisamos mais retribuir abraços, apertos de mão, mensagens carinhosas e demonstrações de amizade que só aparecem em época de eleição. Gestos que, por educação, muitas vezes somos obrigados a aceitar, mesmo quando conhecemos a distância entre o discurso e a realidade.

As bandeiras foram recolhidas, os carros de som silenciaram e os sorrisos desapareceram das esquinas. E é justamente aí que começa uma reflexão necessária.

A democracia não pode se resumir ao direito de escolher quem vai governar.

É evidente que eleições livres, periódicas e legítimas são conquistas fundamentais. Poder votar, discordar, criticar governos e substituir governantes sem violência representa uma vitória civilizatória que precisa ser permanentemente defendida.

Mas seria ingenuidade acreditar que a democracia se realiza plenamente quando o cidadão deposita seu voto na urna e retorna para uma casa sem água tratada, uma rua sem saneamento, uma comunidade dominada pelo medo ou uma família que não sabe se terá comida no dia seguinte.

Que democracia é essa em que todos possuem formalmente os mesmos direitos, mas nem todos dispõem das mesmas condições para exercê-los?

Que igualdade existe entre a criança que estuda em uma escola confortável, equipada e segura e aquela que precisa enfrentar salas precárias, falta de professores e dificuldades até para chegar à escola?

Que liberdade possui uma mãe que passa a madrugada na fila de uma unidade de saúde, sem saber se conseguirá atendimento para o filho?

Que cidadania pode ser plenamente exercida por quem trabalha exaustivamente, recebe salários insuficientes e mal encontra tempo para viver?

A democracia verdadeira exige mais do que urnas, partidos e campanhas eleitorais.

Exige justiça social. Exige oportunidades reais. Exige escola pública de qualidade, saúde acessível, moradia digna, segurança, transporte eficiente, proteção ambiental e respeito às diferenças.

Exige, sobretudo, que a dignidade humana deixe de ser uma expressão bonita nos discursos políticos e passe a ser uma realidade cotidiana.

Não importa se o governante se apresenta como de direita, de esquerda ou de centro. O compromisso com os direitos fundamentais não deveria ser uma concessão ideológica, mas uma obrigação de quem exerce o poder em nome da sociedade.

O problema é que vivemos em uma sociedade na qual a concentração de riqueza e de poder frequentemente entra em conflito com a promessa democrática de igualdade.

O capitalismo, especialmente quando submetido à lógica da acumulação sem limites, transforma necessidades humanas em oportunidades de lucro. A moradia vira mercadoria. A saúde vira negócio. A educação vira produto. O trabalho, que deveria assegurar dignidade, muitas vezes se transforma em instrumento de exploração.

E o poder econômico, não raramente, encontra caminhos para influenciar o poder político, perpetuando privilégios e ampliando desigualdades.

Essa contradição precisa ser enfrentada. Afinal, de que adianta garantir igualdade perante a lei se as condições materiais de existência continuam profundamente desiguais?

No Amapá, como em tantas outras partes do Brasil, a distância entre a democracia prometida e a democracia vivida pode ser percebida nas ruas sem infraestrutura, nas comunidades esquecidas, nas dificuldades dos serviços públicos e nas oportunidades que ainda não chegam a todos.

A campanha eleitoral termina, mas esses problemas permanecem.

Os candidatos recolhem suas bandeiras. Os marqueteiros encerram seus contratos. Os comitês fecham as portas. Os vencedores comemoram. Os derrotados procuram explicações.

E o povo?

O povo continua acordando cedo, enfrentando ônibus, procurando emprego, trabalhando, pagando impostos, aguardando consultas, buscando vagas nas escolas e tentando sobreviver com dignidade.

Talvez seja essa a maior contradição das eleições: durante algumas semanas, o cidadão é tratado como a pessoa mais importante do mundo. Depois, corre o risco de voltar à condição de figurante nas decisões que determinam sua própria existência.

Por isso, não basta celebrar o fim de uma eleição. É preciso compreender que a democracia não pode terminar quando a apuração dos votos acaba.

Ela precisa continuar nas escolas, nos hospitais, nos bairros, nas comunidades, nas relações de trabalho e nas instituições públicas.

Precisa existir quando alguém denuncia uma injustiça, quando a imprensa fiscaliza o poder, quando a sociedade exige transparência e quando o cidadão se recusa a aceitar que o dinheiro público seja utilizado para enriquecer particulares.

Democracia também significa respeitar quem pensa diferente, reconhecer direitos mesmo daqueles de quem discordamos e compreender que nenhuma vitória eleitoral concede a alguém o direito de se apropriar do Estado.

Felizmente, as eleições passaram por aqui.

Felizmente, ainda podemos votar, escrever, questionar, denunciar e manifestar nossas ideias.

Felizmente, apesar de suas imperfeições, a democracia continua sendo o espaço em que podemos lutar por uma sociedade mais justa.

Mas não podemos confundir o direito de votar com a realização plena da democracia.

Porque a democracia que desejamos não é aquela que aparece sorrindo nos cartazes a cada quatro anos. É aquela que precisa estar presente, todos os dias, na vida de cada cidadão.

E enquanto houver gente sem comida, crianças sem educação digna, famílias sem moradia, trabalhadores explorados e cidadãos privados de direitos fundamentais, nossa democracia continuará sendo uma construção inacabada.

As bandeiras eleitorais foram recolhidas.

Mas as bandeiras da justiça social, da dignidade humana e da verdadeira democracia não podem ser guardadas.

Essas precisam continuar nas ruas.

Todos os dias.

Por Domiciano Gomes, jornalista do ConectAmapá

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