Migração de cubanos vira negócio milionário para exploradores no Amapá, revela reportagem da Folha

Investigações da Polícia Federal apontam que brasileiros montaram uma rede de transporte clandestino que cobra valores extorsivos

Chegada de migrantes cubanos em Oiapoque após viagem de Cuba à capital do Suriname, Paramaribo

A migração de cidadãos cubanos que ingressam no Brasil pela fronteira do Amapá passou a alimentar um lucrativo esquema de exploração comandado por brasileiros. A revelação é da Folha de S.Paulo, em reportagem publicada nesta sexta-feira (10), que mostra como redes criminosas estruturaram um verdadeiro mercado clandestino para lucrar com o deslocamento de migrantes desde Oiapoque até outras regiões do país.

Segundo a reportagem, a investigação da Polícia Federal identificou pelo menos 20 brasileiros conhecidos como “pirateiros” ou “picapeiros”, responsáveis por controlar o transporte terrestre dos cubanos que chegam ao Amapá. A atuação vai muito além do simples deslocamento: os grupos são investigados por contrabando de migrantes, extorsão, lavagem de dinheiro e operações ilegais de câmbio.

A PF apurou que apenas um dos integrantes da organização movimentou cerca de R$ 8 milhões em operações financeiras consideradas atípicas durante dois anos de investigação. Os migrantes, muitos deles já portando protocolo de solicitação de refúgio expedido pela própria Polícia Federal, acabam submetidos a cobranças abusivas para prosseguir viagem rumo a cidades como Belém, Goiânia, Curitiba, Florianópolis, Joinville e São Paulo.

Cobranças em dólar e abandono na estrada

Conforme a reportagem, os valores cobrados pelo transporte chegavam a US$ 350 por pessoa. Quem se recusava a pagar era abandonado no trecho entre Oiapoque e Santana, em plena BR-156, sem qualquer assistência.

A investigação também revelou que motoristas circulavam armados e utilizavam motociclistas como batedores para monitorar fiscalizações e garantir que o transporte ocorresse de forma clandestina, principalmente durante a madrugada.

Outro aspecto identificado pela Polícia Federal foi a sofisticação da logística. Em muitos casos, os chamados “pirateiros” já entregavam aos cubanos formulários de pedido de refúgio previamente preenchidos, acelerando a passagem pela unidade da PF em Oiapoque para que a viagem prosseguisse rapidamente em direção ao restante do país.

Oiapoque tornou-se corredor de passagem

A reportagem destaca que Oiapoque consolidou-se como um corredor estratégico para a entrada de migrantes cubanos na Amazônia brasileira. Muitos chegam após vender bens em Cuba e percorrer uma longa rota internacional passando por países da América do Sul até alcançar a fronteira brasileira.

Embora boa parte dos migrantes esteja em situação migratória regular após formalizar o pedido de refúgio, a vulnerabilidade durante o deslocamento é explorada por organizações criminosas que transformaram essa rota em um negócio altamente rentável.

Cubanos aguardam atendimento para ingressar com o pedido de refúgio na delegacia da PF em Oiapoque (AP)

Relatório aponta invisibilidade do problema

A Folha também cita relatório elaborado em 2026 com base em informações da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e da Organização Internacional para as Migrações (OIM/ONU Migração), segundo o qual a ausência de estrutura permanente de acolhimento aos migrantes no Amapá favorece a atuação das quadrilhas.

O documento afirma que o município de Oiapoque funciona essencialmente como ponto de trânsito, onde os migrantes permanecem poucas horas antes de seguir viagem, circunstância que reduz a visibilidade do problema e facilita a ação dos contrabandistas.

Investigações continuam

A Polícia Federal segue tentando identificar os líderes da organização e aprofundar as investigações sobre a rede internacional que, segundo os investigadores, possui conexões em Cuba, Suriname, Guiana Francesa e Brasil.

A nova reportagem reforça que o fluxo migratório, além do aspecto humanitário, tornou-se um desafio permanente para as autoridades brasileiras, diante da atuação de grupos criminosos especializados em explorar financeiramente pessoas em situação de vulnerabilidade, utilizando o território amapaense como principal porta de entrada dessa rota clandestina.

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