Operação Cavalo de Troia, realizada pela Polícia Civil e pelo Gaeco, investiga suposto loteamento de cargos públicos para integrantes da Família Terror Amapá (FTA). Mandados foram cumpridos na Câmara de Vereadores e nas residências do vereador Daniel Theodoro, do ex-vereador Odilson Nunes e da ouvidora Kelly Cristina Pereira Pacheco

A Polícia Civil do Amapá, com apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público Estadual, deflagrou na manhã desta quinta-feira (15) a Operação Cavalo de Troia, que investiga um suposto esquema de infiltração da organização criminosa Família Terror Amapá (FTA) na administração pública.
Entre os alvos está o vereador Daniel Theodoro Petraglia (PSOL), afastado cautelarmente do mandato por determinação judicial. A operação também realizou buscas na sala da Ouvidoria da Câmara Municipal de Macapá e nas residências do parlamentar, do ex-vereador Odilson Serra Nunes e da ouvidora Kelly Cristina Pereira Pacheco.
A ação começou por volta das 6h e foi coordenada pela Divisão de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco). Segundo comunicado oficial da Polícia Civil, foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão em residências, gabinetes da Câmara Municipal e no Instituto de Administração Penitenciária do Amapá (Iapen).
Além das buscas, a Justiça determinou o afastamento de servidores e agentes políticos investigados, com restrições de acesso a repartições públicas e sistemas administrativos.
A investigação aponta a suspeita de utilização de mandatos parlamentares e cargos públicos para favorecer integrantes da facção criminosa, inclusive mediante indicações para empregos e concessão de benefícios administrativos.

Investigação aponta suposta ligação de políticos com lideranças da FTA
Documentos oficiais do inquérito policial nº 7248/2026, aos quais o ConectAmapá teve acesso, revelam a gravidade das suspeitas investigadas pela Draco.
Na portaria de instauração do procedimento, a autoridade policial afirma ter identificado indícios de que agentes políticos e assessores teriam fornecido apoio institucional, logístico e político a integrantes da Família Terror Amapá.
Segundo o documento, as investigações identificaram Valdilene Viegas da Silva e Gilberto Rebelo de Sousa, conhecido como “Betinho”, como integrantes da organização criminosa, com atuação em sua estrutura de liderança.
A Polícia Civil sustenta que Daniel Theodoro e Odilson Serra Nunes, juntamente com assessores e servidores públicos, teriam contribuído para favorecer os interesses da facção.
A portaria menciona expressamente os nomes de Henrique Cardoso Lemos, Jonathan Matos Sales e Kelly Cristina Pereira Pacheco.
De acordo com a investigação, os suspeitos teriam utilizado posições institucionais para oferecer sustentação às atividades do grupo criminoso.
A autoridade policial afirma que a administração pública teria sido transformada em um espaço de negociação de interesses de lideranças da FTA.

As afirmações constam da investigação policial e ainda não representam comprovação definitiva de responsabilidade criminal dos investigados.
Câmara Municipal teria sido utilizada para loteamento de cargos
Um dos principais pontos investigados é a suspeita de utilização da estrutura administrativa da Câmara Municipal de Macapá para beneficiar pessoas indicadas por integrantes da facção.
Segundo a Polícia Civil, o esquema funcionaria mediante uma relação de troca de favores entre lideranças criminosas e agentes públicos.
De um lado, uma liderança externa da organização criminosa teria atuado na mobilização comunitária em favor de agentes políticos.
Em contrapartida, parlamentares e servidores públicos teriam utilizado suas posições para facilitar a contratação de pessoas indicadas pela organização criminosa.
As vagas seriam disponibilizadas em empresas terceirizadas prestadoras de serviços à saúde pública e em entidades conveniadas à administração.
A investigação também aponta que gabinetes parlamentares teriam sido utilizados para administrar indicações e atender interesses do grupo criminoso.
A Polícia Civil investiga, ainda, suspeitas de concessão de privilégios relacionados ao sistema penitenciário, incluindo facilitação de consultas médicas e benefícios administrativos.
Vereador é afastado do mandato e fica proibido de entrar na Câmara
Entre as medidas cautelares determinadas pela Justiça está o afastamento imediato do vereador Daniel Theodoro.
O parlamentar também ficou proibido de acessar as dependências da Câmara Municipal de Macapá, seus sistemas informatizados, secretarias e repartições.
A decisão tem natureza cautelar e busca impedir eventual interferência nas investigações ou utilização da estrutura pública para continuidade das práticas investigadas.
Outro alvo das medidas é um primeiro suplente de vereador, que teve suspensa cautelarmente a possibilidade de convocação, posse ou exercício do mandato, além de ficar impedido de acessar a Câmara Municipal.
A Justiça também determinou o afastamento do diretor do Departamento de Ressocialização e Cidadania do Iapen, com suspensão de suas credenciais de acesso aos sistemas carcerários e proibição de ingresso nas unidades prisionais.
Ouvidora da Câmara também é afastada
A servidora Kelly Cristina Pereira Pacheco, identificada na investigação como integrante da estrutura administrativa da Câmara Municipal, também foi atingida pelas medidas judiciais.
Segundo a Polícia Civil, a servidora foi afastada de suas funções por suspeita de participação em práticas destinadas a favorecer integrantes da organização criminosa.
A medida inclui proibição de ingresso no prédio da Câmara e suspensão de acesso aos sistemas administrativos.
As investigações apontam que servidores públicos teriam utilizado suas atribuições para facilitar atendimentos e encaminhamentos administrativos de interesse de integrantes da facção.
A Polícia Civil busca esclarecer a participação individual de cada investigado e identificar eventuais benefícios concedidos irregularmente.
Investigados ficam proibidos de manter contato

Além dos afastamentos, a Justiça estabeleceu outras medidas cautelares destinadas a preservar as investigações.
Todos os investigados estão proibidos de manter contato entre si, com testemunhas ou com lideranças criminosas presas.
Também deverão comparecer bimestralmente em juízo e não poderão se ausentar de Macapá por mais de sete dias sem autorização judicial.
Segundo a Polícia Civil, a operação representa um desdobramento de investigações anteriores sobre a atuação da Família Terror Amapá e suas possíveis conexões com agentes públicos.
O procedimento tramita sob sigilo judicial.
Investigação expõe suspeitas de infiltração do crime organizado no poder público
A Operação Cavalo de Troia amplia as investigações sobre a possível utilização de estruturas públicas para favorecer organizações criminosas no Amapá.
O caso chama atenção porque envolve agentes políticos, servidores da Câmara Municipal e integrantes da administração penitenciária, instituições que possuem responsabilidades diretas perante a população.
A suspeita de utilização de cargos públicos como moeda de troca para beneficiar integrantes de facções criminosas representa uma ameaça à integridade da administração pública e à confiança da sociedade nas instituições.
A apuração deverá esclarecer a extensão das relações investigadas, identificar eventuais vantagens concedidas e determinar a responsabilidade individual dos envolvidos.
O afastamento cautelar dos investigados não representa condenação. Todos têm direito à presunção de inocência, ao contraditório e à ampla defesa.
Até o fechamento desta matéria, não foram apresentadas manifestações das defesas dos investigados. O ConectAmapá mantém espaço aberto para os esclarecimentos do vereador Daniel Theodoro, do ex-vereador Odilson Nunes, da servidora Kelly Cristina Pereira Pacheco e dos demais citados.








