Delegado que comandou operação Cavalo de Tróia gravou vídeo usado pela campanha de Furlan sobre facção criminosa

Câmara Municipal questiona atuação de Estéfano da Silva Santos. Delegado teve vídeo apresentado pela coligação do governador eleito, sobre o caso das contratações de pessoas ligadas ao crime pela prefeitura

Atuação de Estéfano da Silva Santos no cenário politico ganhou repercussão em setembro no caso das contratações de pessoas ligadas ao crime organizado pela prefeitura de Macapá

O delegado Estéfano da Silva Santos, responsável pela investigação que resultou na Operação Cavalo de Troia, deflagrada nesta quinta-feira (15) contra suspeitos de envolvimento com a organização criminosa Família Terror Amapá (FTA), é o mesmo policial que, durante a campanha eleitoral de 2026 gravou um vídeo utilizado pela coligação do ex-prefeito para contestar uma reportagem nacional sobre a possível infiltração do crime organizado na Prefeitura de Macapá.

A participação política do delegado voltou ao centro das atenções depois que a Câmara Municipal de Macapá divulgou uma nota pública questionando a condução e o momento escolhido para a operação policial, que teve como um dos principais alvos o vereador Daniel Theodoro (PSOL), afastado cautelarmente do mandato por determinação judicial.

O parlamentar havia sido eleito vice-presidente da Mesa Diretora da Câmara para o biênio 2027-2028 apenas dois dias antes da operação.

Na manifestação, a presidência da Câmara, exercida pelo vereador Pedro DaLua, anunciou que solicitará o afastamento cautelar de Estéfano das investigações e apresentará representação à Corregedoria da Polícia Civil para apurar sua atuação.

A controvérsia envolve duas situações distintas: a participação pública das declarações do delegado na campanha eleitoral de Furlan e sua responsabilidade na condução de uma investigação que resultou em medidas judiciais contra integrantes do Legislativo municipal.

Delegado gravou vídeo utilizado pela defesa do candidato

A atuação de Estéfano da Silva Santos no cenário politico ganhou repercussão em setembro, quando a Record TV exibiu uma reportagem sobre suspeitas de relações entre agentes políticos e integrantes de organizações criminosas no Amapá.

A reportagem abordou, entre outros episódios, declarações atribuídas a Luanderson de Oliveira Alves, conhecido como Caçula, sobre uma suposta relação entre integrantes da facção e o grupo político do então prefeito Antônio Furlan.

Após a exibição da reportagem, Estéfano gravou um vídeo afirmando que sua entrevista à emissora havia tratado da atuação das organizações criminosas no estado, e não de acusações específicas contra Furlan.

O delegado também declarou que as investigações conduzidas pela Draco não apontavam indícios de envolvimento do candidato com facções criminosas.

O vídeo ganhou repercussão nas redes sociais e foi utilizado pela coligação de Furlan em uma ação na Justiça Eleitoral para tentar retirar do ar publicações que reproduziam a reportagem da Record.

Câmara questiona coincidência de datas e pede investigação sobre atuação do delegado

Na nota pública divulgada nesta quinta-feira, a Câmara Municipal de Macapá chama atenção para a cronologia dos acontecimentos relacionados à Operação Cavalo de Troia.

Segundo o documento, o Inquérito Policial nº 7248/2026, instaurado por Estéfano da Silva Santos, foi aberto em 10 de setembro, mesma data em que a Record TV teria gravado e exibido a reportagem sobre as suspeitas envolvendo o ex-prefeito Antônio Furlan.

“A cronologia dos fatos causa estranheza”, afirma a nota.

A presidência da Câmara também questiona o fato de a operação ter sido deflagrada apenas dois dias depois da eleição da Mesa Diretora para o biênio 2027-2028.

Daniel Theodoro, um dos principais alvos da investigação, havia sido eleito vice-presidente da chapa vencedora.

Para a Câmara, a sequência dos acontecimentos exige esclarecimentos sobre a motivação e a oportunidade da operação policial.

O documento levanta a possibilidade de instrumentalização política da estrutura policial, mas não apresenta provas conclusivas de que a investigação tenha sido conduzida com essa finalidade.

A Câmara anunciou que solicitará, por meio de sua Procuradoria, o afastamento cautelar de Estéfano das investigações relacionadas ao caso.

Também informou que apresentará representação à Corregedoria da Polícia Civil para apurar a regularidade da atuação do delegado e eventual motivação incompatível com a finalidade investigativa.

Até o momento, a manifestação da Câmara representa um questionamento institucional, e não uma conclusão de que o delegado tenha cometido irregularidades.

Câmara afirma que combate ao crime organizado não pode sofrer interferência política

A nota divulgada pela presidência do Legislativo municipal ressalta que a instituição não pretende impedir investigações criminais.

Segundo o documento, o objetivo é assegurar que as medidas policiais sejam conduzidas com imparcialidade, legalidade e respeito à autonomia do Poder Legislativo.

A Câmara também contesta a abrangência das informações divulgadas pela Polícia Civil sobre as buscas realizadas no prédio do Legislativo.

Segundo a presidência, as diligências ficaram restritas a duas salas, embora o comunicado policial tenha mencionado gabinetes e dependências da instituição de maneira mais ampla.

Atuação

A definição sobre eventuais irregularidades dependerá da análise dos órgãos competentes.

O ConectAmapá mantém espaço aberto para manifestações do delegado Estéfano da Silva Santos, da Polícia Civil do Amapá, do Ministério Público Estadual e das defesas dos investigados.

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