Maju Coutinho “carrega” bandeira do Amapá durante encontro de Mulheres Quilombolas

Encontro acontece em Brasília entre os dias 10 e 14 de junho

Uma cena chamou bastante a atenção durante a abertura do III Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas da CONAQ, nesta quarta-feira, em Brasília. A jornalista e apresentadora do programa Fantástico, da Rede Globo, convidada especial para a abertura do encontro, participou de parte do evento carregando a bandeira do Amapá em forma de lenço no pescoço. Maju dançou marabaixo e foi homenageada pelas participantes presentes.

O evento traz como lema central “Mulheres  Quilombolas na defesa por justiça climática, por reparação e  democracia: somos o começo, o meio e o começo!”uma afirmação da  ancestralidade e da continuidade histórica que regem a sobrevivência e a resistência  das comunidades negras rurais no Brasil. 

O encontro deste ano, realizado no Divino Paraíso, carrega um simbolismo histórico  e afetivo, pois marca as celebrações de 30 anos da Coordenação Nacional de  Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ). Durante cinco  dias, o Distrito Federal acolherá mais de 500 mulheres quilombolas vindas de 24  Estados brasileiros, além de delegações internacionais representando sete países. O  objetivo é unificar estratégias contra os impactos das mudanças climáticas nos  territórios tradicionais, combater as violências sistêmicas e ampliar a incidência  política das mulheres nas esferas nacionais e internacionais de poder. 

De acordo com a coordenadora do Coletivo de Mulheres e articuladora política da  CONAQ, Selma Dealdina Mbaye, a agenda será uma conexão direta com a diáspora e  com o continente africano, que recebe pela primeira vez representantes do Quênia e  do Senegal, além de delegações de países da América Latina e Caribe, como Peru,  Paraguai, Trinidad, Colômbia, Equador e HondurasPara ela, o encontro é um  espaço de continuidade e honra àquelas que pavimentaram o caminho do movimento  quilombola. 

“É uma realização que carrega um simbolismo profundamente histórico e  emocional. Primeiro porque homenageamos a filosofia do Nêgo Bispo no lema do  evento: na nossa circularidade, nós somos começo, meio e começo! É também um  momento atravessado pela saudade e responsabilidade de dar continuidade ao  legado de cinco grandes companheiras que estiveram conosco no último encontro e  hoje são nossas ancestrais. Assumimos a missão de honrar a luta que elas  travaram em nível nacional e internacional. Além de conectar nossas pautas de  gênero, clima e defesa dos direitos humanos para que nenhuma liderança viva sob  ameaça, para que entendam que a nossa produção gera vida e que lutamos pela  titulação dos nossos territórios porque precisamos proteger nossos corpos e nossa história”. 

Lançamento do Plano Emergencial e Documentário ‘CAFUNÉ’ com Maju  Coutinho 

Um dos momentos de maior relevância política do encontro oconteceu nesta quarta-feira, dia 10 de  junho, com o lançamento do Plano Emergencial para Mulheres Ameaçadas em seus  Territórios e a exibição do documentário institucional “CAFUNÉ”. O plano responde  diretamente ao agravamento dos conflitos agrários e ambientais que vulnerabilizam  lideranças quilombolas femininas em todo o País. Mais do que um diagnóstico, a  iniciativa prevê desdobramentos práticos a curto prazo, incluindo a publicação de  uma cartilha pedagógica e a estruturação de formações integradas voltadas para a  articulação e incidência política dessas mulheres. 

Para somar voz e visibilidade a essa caminhada, o encontro conta com a  participação especial da jornalista Maju Coutinho. Ela será a principal convidada  para uma roda de conversa inspirada no formato do quadro “Mulher Fantástica”,  promovendo uma troca horizontal de vivências. A presença de Maju simboliza o  fortalecimento da representatividade negra e uma parceria de luta com as pautas  quilombolas, prestando tributo à inteligência, à força e aos saberes das mulheres que  lideram a proteção dos biomas brasileiros. 

Feira de Saberes e Práticas Tradicionais: bioeconomia, agricultura  quilombola e renda 

A salvaguarda da cultura e a autonomia financeira também ganham centralidade  com a realização da Feira de Saberes Tradicionais. O espaço reuni cerca de 50  agricultoras familiares, raizeiras, benzedeiras e parteiras vindas de diferentes  realidades geográficas do Brasil, compartilhando e comercializando a diversidade  produtiva de seus territórios. 

A feira se diferencia da perspectiva apenas comercial, funcionando como um  termômetro da sociobiodiversidade nacional e um manifesto pela regularização  fundiária. A diversidade dos produtos reflete os diferentes biomas que as  comunidades protegem: desde o artesanato em capim dourado do Cerrado e as  bonecas de crochê, até a produção alimentar viva, como o marmelo, o licor, temperos  caseiros, chás fitoterápicos, sabonetes artesanais e variações únicas de farinhas  alimentares cujos modos de fazer guardam segredos seculares. 

“A CONAQ é um movimento misto, mas dentro dos territórios quem lidera a  produção são as mulheres. Seja na agricultura familiar, na medicina tradicional,  no artesanato ou na farinha, cada estado traz uma identidade única determinada  pelo seu bioma. Essa feira é o retrato vivo de por que lutamos pela regularização  dos nossos territórios: nós produzimos vida e sustentabilidade. Queremos mostrar  essa riqueza para quem não conhece os quilombos e, ao mesmo tempo, cobrar dos  governos políticas públicas de fomento e crédito produtivo, pois as mulheres ainda  enfrentam imensas barreiras para acessar esses recursos e escoar suas produções”, destaca Cida Souza, Coordenadora do Coletivo de Mulheres da CONAQ.

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