Treze dias após o crime, MP-AP denuncia acusado de matar companheira com tiro na cabeça em Santana

Ministério Público afirma que crime foi premeditado, motivado por sentimento de posse e suspeita de traição; imagens registraram o clarão do disparo dentro do veículo  

O Ministério Público do Amapá (MP-AP) denunciou à Justiça, nesta quinta-feira (13), Adriano e Silva Pinheiro, de 49 anos, acusado de matar a companheira, Emilly Darck Vanzeler Canela, de 22 anos, com um tiro na cabeça dentro do carro do casal, em Santana. 

O crime aconteceu na manhã de 1º de agosto, e, segundo a denúncia, foi cometido de forma premeditada, em um contexto de violência doméstica e familiar.

A acusação sustenta que Adriano agiu motivado por um intenso sentimento de posse e por suspeitas de que Emilly estaria mantendo contato com outro homem. O Ministério Público pede que ele seja levado a julgamento pelo Tribunal do Júri e condenado por feminicídio.

Adriano e Emilly mantinham um relacionamento havia quase seis anos e dez meses e moravam juntos. Segundo o MP-AP, o relacionamento era marcado por conflitos e comportamentos abusivos. Nos dias anteriores ao assassinato, o acusado teria passado a desconfiar de uma suposta traição, que, conforme os depoimentos, seria motivo de tensão entre o casal.

Gritos e retirada de câmera

A investigação aponta que a violência já havia se manifestado horas antes do assassinato. Na noite anterior, uma vizinha relatou ter ouvido intensa movimentação na residência do casal e gritos de Emilly pedindo: “PARA, PARA!”.

Para o Ministério Público, outro elemento reforça a suspeita de que o crime foi planejado. Adriano teria retirado a câmera de monitoramento instalada em frente à residência do casal, numa tentativa de impedir que seus atos fossem registrados.

Na manhã de 1º de agosto, o acusado teria se oferecido para levar Emilly ao trabalho utilizando o carro do casal. A denúncia afirma que ele alegou precisar posteriormente do veículo.

Por volta das 5h, já nas proximidades da Rodovia Duca Serra, Adriano teria pedido que Emilly parasse o automóvel. Em seguida, puxou o freio de mão, sacou uma arma e, diante da reação da vítima — “TÚ TÁ FICANDO DOIDO?” — respondeu: “ISSO É PRA TU RESPEITAR CARA DE HOMEM”. Na sequência, efetuou o disparo contra a cabeça da companheira.

Segundo a denúncia, o acusado permaneceu dentro do carro por aproximadamente cinco minutos após o tiro e depois fugiu a pé por uma área de mata.

Câmera registrou o momento do disparo

Mesmo com a retirada da câmera da residência, outras imagens de monitoramento ajudaram a investigação a reconstruir o assassinato. A análise das mídias anexadas ao processo identificou a parada abrupta do veículo e, às 5h04, um intenso clarão dentro do automóvel com o vidro fechado, compatível com o disparo da arma de fogo.

O laudo necroscópico apontou que Emilly morreu em decorrência de traumatismo cranioencefálico provocado por projétil de arma de fogo disparado a curta distância. A trajetória do tiro, da direita para a esquerda, indicou que o atirador estava no banco do passageiro, surpreendendo a vítima e, segundo o MP, sem dar a ela possibilidade de defesa.

Acusado teria confessado o crime

Nas primeiras horas após o crime, Adriano teria apresentado uma versão diferente aos policiais. Segundo o boletim de ocorrência citado na denúncia, ele afirmou que havia adormecido depois que a esposa saiu e que só soube do ocorrido quando uma vizinha o avisou que seu carro havia sido visto com uma mulher sangrando dentro.

Ainda conforme essa primeira versão, ele teria ido ao local de bicicleta e encontrado a polícia preservando a cena.

A narrativa foi confrontada pelas diligências policiais. Durante uma ação do Grupo Tático Aéreo (GTA), Adriano foi localizado e levado até sua residência para verificar se o uniforme de trabalho de Emilly estava no imóvel.

Segundo o depoimento do policial responsável pela condução, nesse momento o acusado apresentou abalo emocional e confessou espontaneamente ter matado a companheira. Ainda de acordo com a denúncia, ele teria relatado aos policiais a motivação, o planejamento e a execução do crime, inclusive que simulou que levaria Emilly ao trabalho.

Já no interrogatório formal, Adriano optou por permanecer em silêncio. Segundo o próprio documento, ele confirmou apenas que havia confessado o crime anteriormente aos policiais do GTA.

Testemunhas reforçaram suspeita

A investigação também reuniu depoimentos que, segundo o Ministério Público, reforçam a tese de que o assassinato ocorreu dentro de um relacionamento marcado por controle e comportamento abusivo.

A irmã de Emilly contou que Adriano teria dito ter visto a companheira trocando mensagens no banheiro e supostamente combinando um encontro com outro homem. Outra testemunha descreveu o relacionamento como conturbado.

Durante a investigação, um homem que estava em uma cela próxima à de Adriano no fórum afirmou ter ouvido o acusado bater as mãos contra a parede e dizer: “PRA QUE EU FIZ ISSO? EU ACABEI COM MINHA VIDA, PERDI MEUS ANOS DE TRABALHO…”.

MP aponta feminicídio e pede condenação

Na denúncia, o MP-AP afirma que Adriano executou um ataque premeditado contra a companheira, motivado por sentimento de posse e suspeitas de infidelidade. Para a acusação, o fato ocorreu por razões relacionadas à condição de mulher da vítima e dentro de um contexto de violência doméstica e familiar.

O Ministério Público também sustenta que o acusado utilizou recurso que dificultou a defesa de Emilly ao surpreendê-la dentro do veículo, onde ela não teria possibilidade de fuga ou resistência. 

O MP-AP pediu à Justiça o recebimento da denúncia e que o caso siga pelo procedimento do Tribunal do Júri, responsável pelo julgamento dos crimes dolosos contra a vida. 

Adriano permanece preso no Iapen. A denúncia representa a acusação formal apresentada pelo Ministério Público e deverá ser analisada pela Justiça.

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