Travessia aérea entre Nova York e Buenos Aires foi interrompida nas proximidades da Ilha de Maracá; tripulantes foram salvos por pescadores

A Folha de S.Paulo vem publicando, em capítulos, a história de um episódio pouco lembrado da aviação nas Américas e que tem ligação direta com o Amapá. Em junho de 1926, um hidroavião que fazia a rota entre Nova York, nos Estados Unidos, e Buenos Aires, na Argentina, precisou fazer um pouso inesperado no mar, nas proximidades da Ilha de Maracá, atualmente localizada no estado do Amapá.
A aeronave era ocupada pelos aviadores argentinos Bernardo Duggan e Eduardo Olivero e pelo mecânico italiano Ernesto Campanelli. Segundo os relatos históricos recuperados pela Folha, o grupo enfrentou problemas com o combustível durante a longa travessia e foi obrigado a amerissar — termo usado para pouso de aeronave na água.
O caso ganhou repercussão nacional à época. Inicialmente, houve preocupação sobre o paradeiro dos tripulantes, já que a comunicação na região era difícil e as buscas envolviam embarcações. Depois, veio a confirmação de que os três estavam vivos e em boas condições de saúde.
O resgate foi feito por pescadores que estavam em uma canoa nas proximidades da Ilha de Maracá. Um dos personagens centrais da história é o pescador Josino Cardoso, apontado como responsável por ajudar a salvar os aviadores. De acordo com a série publicada pela Folha, ele chegou a recusar uma premiação em dinheiro oferecida pela família de um dos tripulantes, afirmando que havia feito apenas o que sua consciência mandava.
Cardoso destacou que vivia de forma modesta, que fez algo muito simples e que sua consciência não permitia receber dinheiro por aquela ação. Já sobre a medalha lhe oferecida pela Municipalidade de Buenos Aires, ele disse aceitaria por não ter valor monetário.
Após o resgate, os aviadores foram levados até Vigia, no Pará. O hidroavião permaneceu na região da Ilha de Maracá e, posteriormente, um rebocador saiu de Belém levando os tripulantes de volta à aeronave, além do combustível necessário para a retomada da viagem rumo à Argentina.
A série publicada pela Folha chama atenção não apenas pelo resgate de uma aventura aérea do início do século passado, mas também por recolocar o Amapá no centro de um episódio histórico da aviação continental. Em 1926, décadas antes da criação do estado, a região já fazia parte das grandes rotas e desafios enfrentados por exploradores, navegadores e aviadores que cruzavam as Américas.
O episódio também revela a importância das comunidades tradicionais e dos trabalhadores do litoral amazônico em momentos decisivos da história. Sem os pescadores da região, a travessia poderia ter terminado em tragédia.
Quase 100 anos depois, o caso volta à memória pública como parte de uma narrativa que une aventura, risco, solidariedade e a presença estratégica do território amapaense nas rotas históricas da Amazônia e do Atlântico.








