Risco de morte é quase 17 vezes maior do que entre não negros

O Amapá aparece no topo de um dos indicadores mais preocupantes do Atlas da Violência 2026. De acordo com levantamento divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o estado registrou, em 2024, a maior taxa de homicídios de pessoas negras do Brasil: 56,8 assassinatos para cada 100 mil habitantes negros.
Os dados de 2024 colocavam o Amapá à frente de estados historicamente marcados pela violência letal, como Alagoas (48,9), Pernambuco (47,6) e Bahia (47,1).
Os números ganham contornos ainda mais alarmantes quando comparados à realidade da população não negra no estado. Segundo o Atlas da Violência, a taxa de homicídios entre não negros no Amapá foi de apenas 3,4 por 100 mil habitantes. Na prática, uma pessoa negra no estado esteve exposta a um risco de morte violenta quase 17 vezes superior ao de uma pessoa não negra.
Desigualdade racial persiste no país
O estudo revela que a violência letal continua atingindo de forma desproporcional a população negra em todo o Brasil. Em 2024, a taxa nacional de homicídios entre negros foi de 27,3 por 100 mil habitantes, enquanto entre não negros o índice ficou em 10,1 por 100 mil. Isso significa que pessoas negras tiveram um risco 170,3% maior de serem assassinadas.
Ao todo, 32.820 pessoas negras foram assassinadas no país em 2024, o equivalente a 77% de todos os homicídios registrados no Brasil. A média representa quase 90 pessoas negras mortas por dia.

Norte concentra os piores indicadores
Os números reforçam uma tendência observada há anos pelos pesquisadores: a violência letal contra a população negra está fortemente concentrada nas regiões Norte e Nordeste. Enquanto estados do Sul e Sudeste apresentam os menores índices, os estados amazônicos seguem figurando entre os mais violentos para a população negra.
O contraste é evidente quando comparado ao estado de São Paulo, que registrou a menor taxa de homicídios de pessoas negras do país, com 8 mortes por 100 mil habitantes. Santa Catarina aparece em seguida, com 10,3 homicídios por 100 mil habitantes negros.
Realidade local
Os dados divulgados pelo Atlas da Violência dialogam com a realidade enfrentada pelo Amapá nos últimos anos. Apesar da redução recente da taxa geral de homicídios no estado, a violência continua afetando de maneira muito mais intensa a população negra, especialmente jovens moradores das periferias urbanas.
Para especialistas, o cenário evidencia que o enfrentamento da criminalidade não pode se limitar às ações de segurança pública. A redução da desigualdade racial, a ampliação das oportunidades educacionais, o acesso ao mercado de trabalho e o fortalecimento das políticas sociais são apontados como medidas essenciais para enfrentar um problema que, além de criminal, possui profundas raízes sociais e históricas.
O levantamento demonstra que, embora os homicídios tenham diminuído no Brasil na última década, a redução ocorreu de forma desigual. Entre 2014 e 2024, a taxa de homicídios de pessoas não negras caiu 38,9%, enquanto entre a população negra a redução foi de apenas 21,7%, mantendo a disparidade racial como uma das principais marcas da violência brasileira.








