Contraste: cercada pela Amazônia, Macapá convive com déficit de arborização e excesso de concreto

Por Pavel Tikhomiroff

Capital amapaense ocupa apenas a 11ª posição entre as capitais brasileiras

Vista aérea de Macapá. Foto: Prefeitura de Macapá

O Brasil abriga a Floresta Amazônica e possui a maior diversidade de árvores do mundo. Diversas capitais fazem uso dessa riqueza em seus planos de arborização. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as cinco capitais brasileiras mais arborizadas são Campo Grande (91,4% dos moradores em vias arborizadas), Goiânia (89,6%), Palmas (88,7%), Curitiba (85,2%) e Brasília (84,2%).

As cidades com os piores índices são Rio Branco (39,9%), São Luís (34,3%) e Salvador (34,1%). Ironicamente, muitas capitais amazônicas, apesar de estarem cercadas pela floresta, aparecem nas posições inferiores do ranking.

Em um país de clima predominantemente quente, a arborização urbana deixou de ser apenas uma questão estética para se tornar uma necessidade ambiental e de saúde pública. A presença de árvores melhora a qualidade do ar, reduz a temperatura, contribui para a drenagem urbana e proporciona bem-estar à população.

Segundo o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, áreas arborizadas podem reduzir em até 5°C a temperatura em regiões densamente urbanizadas. Além disso, árvores ajudam a conter alagamentos, estabilizam o solo e reduzem os efeitos das chamadas ilhas de calor, fenômeno agravado pela expansão do concreto nas cidades.

Macapá está apenas na metade do ranking

Os dados do IBGE mostram que Macapá ocupa apenas a 11ª posição entre as capitais brasileiras, com 62,9% dos moradores vivendo em ruas arborizadas. O índice coloca a capital amapaense abaixo da média nacional, que é de 66%.

O levantamento aponta que a área mais arborizada da cidade é o bairro do Zerão. Em contrapartida, regiões centrais, parte do Buritizal e a zona norte — área que registra acelerado crescimento populacional e expansão imobiliária — figuram entre os locais com menor cobertura vegetal.

O dado chama atenção porque Macapá está localizada em plena Amazônia, cercada pela maior floresta tropical do planeta. Ainda assim, a arborização urbana nunca foi tratada como política pública estruturante e de longo prazo.

Em uma cidade onde as temperaturas frequentemente ultrapassam os 30 graus durante todo o ano, a ausência de planejamento voltado à arborização acaba sendo sentida diretamente pela população

Em uma públicação do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Amapá (Unifap) o biólogo e coordenador do curso de Ciências Ambientais da Universidade, José Leonardo Lima Magalhães, destacou que as árvores têm papel fundamental na regulação da temperatura urbana, mas a implantação precisa ser feita com critério.

Há grande importância de utilizar espécies que tenham adequação para o nosso clima, para o nosso solo e para o ambiente em que elas estão. Por exemplo, quando a gente faz algum tipo de arborização ou plantio num aparelho urbano, numa praça, alguma área de uso público, tem que considerar diversas situações, uma delas é a probabilidade dessa árvore causar algum dano, no sentido das calçadas, da queda de algum fruto. Então, a adequação do uso tem a ver com essas condicionantes”, explica.

Magalhães reforça que a quantidade de árvores influencia diretamente na redução da sensação térmica, mas lembra que “o aspecto qualitativo também é muito importante” para garantir espaços seguros e agradáveis para a população. O pesquisador destaca ainda que o crescimento horizontal de Macapá, marcado pela ocupação de áreas nativas, agravou o problema.

Muito concreto, pouca sombra

Nos últimos anos, a cidade assistiu à execução de diversas obras urbanísticas marcadas pelo uso intensivo de concreto e pouca integração com projetos de arborização.

Um dos exemplos frequentemente citados por urbanistas e ambientalistas é a Praça do Complexo do Meio do Mundo, inaugurada como um dos principais cartões-postais da cidade. Apesar do amplo espaço urbanizado, o local possui reduzida cobertura vegetal quando comparado à extensão da área pavimentada.

Praça do Complexo do Meio do Mundo, inaugurada como um dos principais cartões-postais da cidade. Muito cocreto, pouco verde

A mesma característica pode ser observada em outros espaços públicos revitalizados ou construídos recentemente, onde predominam extensas áreas cimentadas, reduzindo a oferta de sombra natural e contribuindo para o aumento da sensação térmica.

Em uma cidade onde as temperaturas frequentemente ultrapassam os 30 graus durante todo o ano, a ausência de planejamento voltado à arborização acaba sendo sentida diretamente pela população, especialmente nos bairros periféricos.

Meta de 20 mil árvores em um único ano levanta questionamentos

De acordo com informações divulgadas pela própria Prefeitura de Macapá, mais de 30 mil árvores teriam sido plantadas em diversos bairros da capital desde 2021.

O número, entretanto, gera questionamentos quando confrontado com outra meta anunciada pela administração municipal: o plantio de 20 mil árvores apenas em 2026.

Na prática, isso significa que, em um único ano, a prefeitura pretendia plantar mais da metade de tudo o que afirma ter plantado ao longo de cinco anos de gestão.

Para moradores e observadores da política urbana local, os números divulgados não correspondem à percepção da realidade encontrada nas ruas da cidade, sobretudo em áreas de expansão urbana onde a presença de árvores continua limitada.

Macapá está localizada em plena Amazônia, cercada pela maior floresta tropical do planeta

Qualidade de vida

Especialistas defendem que o desafio da arborização urbana vai além do simples plantio de mudas. É necessário planejamento, manutenção, escolha adequada das espécies e integração com políticas de drenagem, mobilidade urbana e adaptação às mudanças climáticas.

Enquanto cidades como Campo Grande, Goiânia e Palmas transformaram a arborização em política permanente de gestão urbana, Macapá ainda busca superar o paradoxo de estar inserida no coração da Amazônia, mas continuar convivendo com bairros inteiros marcados pelo predomínio do concreto e pela escassez de sombra.

O resultado é uma cidade mais quente, menos confortável e mais vulnerável aos impactos ambientais que tendem a se intensificar nos próximos anos.

COMPARTILHE!

Comentários:

Notícias Relacionadas

error: Conteúdo protegido!!