Estudo realizado em parceria com o DSEI Amapá e Norte do Pará reforça alerta sobre impactos do garimpo ilegal na saúde das populações indígenas da região

Um novo levantamento divulgado pelo Iepé – Instituto de Pesquisa e Formação Indígena acendeu mais um alerta sobre os impactos do garimpo ilegal na região de Oiapoque, extremo norte do Amapá. Segundo os dados apresentados pela instituição, pelo menos metade das pessoas indígenas analisadas apresentou níveis elevados de mercúrio no organismo, situação considerada grave e preocupante pelas organizações envolvidas no estudo.
A pesquisa foi realizada a partir de uma demanda das próprias organizações indígenas do Oiapoque, em parceria com o Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Amapá e Norte do Pará. O levantamento reforça a necessidade urgente de medidas de saúde pública e fiscalização ambiental diante do avanço da contaminação causada pela exploração ilegal de ouro na região amazônica.
De acordo com o Iepé, os altos índices de mercúrio identificados representam uma ameaça direta à saúde das populações indígenas, especialmente entre os grupos considerados mais vulneráveis, como idosos, crianças e mulheres em idade fértil. A exposição contínua ao mercúrio pode provocar danos neurológicos, problemas motores, alterações cognitivas, comprometimento do desenvolvimento infantil e outras doenças graves.
A presidente da organização indígena, Janina Karipuna, demonstrou sua preocupação: “As consequências da contaminação pelo mercúrio atingem a todos, não só aqueles que estão no garimpo. Todos saímos prejudicados. Por isso é importante ainda fazer novos testes e ampliar a discussão sobre isso nas nossas terras”.
A contaminação do mercúrio não atinge somente os indígenas, mas também todas as pessoas que consomem peixes carnívoros da bacia amazônica. Um estudo realizado em 2023 revelou que peixes comercializados em feiras e mercados na região norte estão contaminados por mercúrio. Já em 2020, outro estudo revelou que os peixes comercializados nos centros urbanos da Amazônia também estão contaminados por mercúrio. Em 2021 um estudo revela altos níveis de contaminação por mercúrio em mulheres.
Garimpo
A contaminação por mercúrio é uma das principais consequências ambientais associadas ao garimpo ilegal. O metal é utilizado no processo de separação do ouro e acaba despejado nos rios, contaminando a água, os peixes e toda a cadeia alimentar das comunidades tradicionais que dependem diretamente desses recursos naturais para sobreviver.
A situação preocupa ainda mais porque o Oiapoque concentra diversas terras indígenas e comunidades que vivem em áreas de difícil acesso, onde o atendimento médico especializado é limitado. Lideranças indígenas da região vêm denunciando há anos o aumento da presença de garimpeiros ilegais e os impactos sociais e ambientais causados pela atividade.

Amazônia sob pressão
Nos últimos anos, órgãos ambientais, pesquisadores e entidades indígenas têm alertado para o crescimento da contaminação por mercúrio em diferentes territórios indígenas da Amazônia brasileira. Estudos realizados em outras regiões já identificaram níveis elevados da substância em povos indígenas expostos à atividade garimpeira, principalmente em áreas cortadas por rios utilizados como rota para exploração ilegal de ouro.
Além dos impactos à saúde humana, a contaminação compromete a biodiversidade amazônica, afeta a pesca artesanal e ameaça a segurança alimentar das comunidades tradicionais.
O estudo completo divulgado pelo Iepé já está disponível na plataforma Infoteca da instituição e traz detalhes técnicos sobre a metodologia e os resultados do levantamento realizado no Oiapoque.
Entenda os riscos do mercúrio
O mercúrio é considerado uma substância altamente tóxica pela Organização Mundial da Saúde. Entre os principais efeitos da exposição prolongada ao metal estão danos ao sistema nervoso central; perda de coordenação motora; problemas de visão e audição; dificuldades cognitivas; comprometimento do desenvolvimento fetal; e aumento de doenças neurológicas e cardiovasculares.
Especialistas alertam que mulheres grávidas e crianças são os grupos mais suscetíveis aos efeitos da contaminação.
Pressão por ações efetivas
O levantamento deve ampliar a pressão sobre órgãos ambientais e autoridades de saúde para adoção de medidas de combate ao garimpo ilegal e monitoramento permanente das populações atingidas.
Entidades indígenas também defendem o fortalecimento da fiscalização em áreas de fronteira, sobretudo na região do Oiapoque, que faz ligação com a Guiana Francesa, apontada historicamente como rota de circulação de garimpeiros e insumos utilizados na mineração clandestina.
Para mais informações, acesse o relatório completo na Infoteca do site do Iepé.








