Comunidade fica próxima a Companhia Docas; gigante do agro que opera no porto é inspecionada por especialistas, que apontam falhas e indicam soluções para os problemas encontrados

Os moradores da Ilha de Santana relatam dificuldades para respirar por causa da densidade do ar, com ocorrência de asma, rinite, bronquite crônica e chiado no peito, situação que afeta principalmente idosos e crianças.
A desconfiança da comunidade é que os problemas de saúde estejam sendo causados pela inalação de partículas finas derivadas do farelo da soja, já que a ilha fica a pouco mais de 500 metros do Porto da Companhia Docas de Santana (CDSA).

A reclamação foi levada ao Ministério Público do Amapá (MP-AP), em outubro de 2024. De lá pra cá, foram realizadas várias diligências para tentar descobrir de onde sai o problema.
Uma investigação técnica detalhada conduzida pelo MP, trouxe elementos sobre a convivência entre a atividade portuária de exportação de soja e a comunidade da Ilha de Santana.
A maior suspeita recaiu sobre as operações da Caramuru Alimentos, uma gigante do agro, que exporta farelo de soja e a Proteína Concentrada de Soja (SPC).
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Dois relatórios, concluídos no começo de abril deste ano, produzidos por especialistas da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) no âmbito de um convênio de assessoramento técnico-científico, analisam se o material particulado (pó) proveniente das operações da Caramuru está atingindo as residências e afetando a saúde dos moradores.
A dispersão do pó
O relatório Ambiental, assinado pelo Prof. Dr. Herondino dos Santos Filho, utilizou modelos de dispersão para entender como o farelo de soja e a Proteína Concentrada de Soja (SPC) se comportam na atmosfera.
Segundo o estudo, o farelo de soja possui um alto potencial de transporte pelo vento, devido à sua baixa densidade em comparação ao grão integral, o que facilita sua suspensão no ar.
As análises indicam que, sob condições específicas de vento na região, que o raio de dispersão do material particulado pode atingir até 4 km, englobando as áreas residenciais da Ilha de Santana, localizadas a cerca de 500 metros do terminal portuário, largura do braço do rio.
O relatório destaca que a poluição atmosférica verificada é tecnicamente capaz de gerar as doenças respiratórias e dermatológicas relatadas pelos moradores.
Falhas Estruturais e de Controle
Complementando a análise ambiental, o parecer de Engenharia Civil, elaborado pelo Prof. Me. Adenilson Costa de Oliveira, focou nas instalações físicas e nos sistemas de mitigação da empresa. A inspeção in loco identificou pontos críticos na operação:
- Sistema de Carregamento: Foi constatado que o equipamento de carregamento de navios (shiploader) apresenta dispersão significativa de material durante o uso.
- Controle de Particulados: O especialista recomenda a instalação urgente de tecnologias mais eficientes, como filtros de manga nos pontos de transferência e o enclausuramento aprimorado das correias transportadoras.
- Monitoramento: A ausência de monitoramento contínuo de partículas inaláveis dificulta a verificação em tempo real do descumprimento das normas.
Caminhos para a Sustentabilidade e Reparação
Os especialistas não apenas apontaram problemas, mas sugeriram medidas para um possível Compromisso de Ajustamento de Conduta (TAC) junto ao Ministério Público:
- Reparação Direta:
- Realização de mutirões de saúde especializada (pneumologia, pediatria e geriatria) para os moradores da Ilha de Santana e do entorno.
- Tecnologia:
- Adoção de tecnologias para capturar, suprimir ou conter o material particulado, e trombas telescópicas vedadas no carregamento dos navios para minimizar a dispersão de pó.
O documento conclui que a continuidade das operações depende da transparência dos dados de monitoramento e de um fortalecimento real dos laços sociais e ambientais com a população local, buscando uma convivência harmônica entre a logística de alta tecnologia e a preservação da identidade ribeirinha.
Sobre a Caramuru Alimentos
Fundado em 1964 no Paraná, o Grupo Caramuru possui operações consolidadas em Goiás, Mato Grosso e São Paulo, atuando nos segmentos de nutrição animal, industrial, produtos de consumo, commodities, biodiesel e logística.
A companhia destaca-se pela sua robusta infraestrutura de escoamento, com terminais portuários estratégicos em Santos (SP), Tubarão (ES) e Santana (AP), além de uma Estação de Transbordo de Carga (ETC) em Miritituba (PA).
Presente no Amapá desde 2014, a empresa operava inicialmente no Porto de Santana via contratos de uso temporário renovados semestralmente. Esse cenário mudou em agosto de 2021, quando o grupo arrematou, em leilão na B3 por R$ 5,85 milhões, o direito de exploração de uma área no porto por 25 anos, consolidando seus investimentos na região.
O terminal da Caramuru em Santana é o ponto final de uma rota logística intermodal que começa no Centro-Oeste (especialmente Sorriso, MT). O fluxo funciona da seguinte forma:
● Origem: grãos e farelos saem do Mato Grosso por caminhão (BR-163).
● Transbordo: seguem até o Porto de Itaituba (Miritituba), no Pará.
● Hidrovia: são transportados por barcaças pelo Rio Tapajós e Amazonas até o Porto de Santana.
● Exportação:
Em Santana, a carga é armazenada e carregada em navios de grande porte com destino à Europa e Ásia.
Infraestrutura em Santana
A empresa realizou investimentos significativos para operar na área arrendada da Companhia das Docas de Santana (CDSA):
● Capacidade de Armazenamento: possui silos com capacidade para cerca de 21 mil toneladas (em expansão ou atualização constante conforme o plano de investimentos de R$ 43 milhões anunciado em leilões).
● Vantagem Competitiva: exportar por Santana reduz o tempo de viagem para a Europa em pelo menos 3 dias em comparação aos portos de Santos ou Paranaguá, além de reduzir custos de frete em até 20%.
● A empresa é uma das líderes mundiais em soja não transgênica (Non-GMO), e o terminal de Santana é crucial para manter a segregação e a integridade desse produto premium que o mercado europeu demanda.








